domingo, 30 de março de 2014

Onde falta a dialética

Que dizer de um dialético que, ao amar, angustia-se com os meios, não entende o particular, que voa do singular ao universal e vice-versa sem termo médio, que no compartir, sofre, só de pensar em um terceiro termo da unidade, em um outro?

domingo, 23 de março de 2014

Um pouco da história da minha loucura



Um excesso de dialética me levou – desde muito cedo – a jamais admitir a cisão cartesiana que a maioria de nós julga existir entre o corpo e a alma; sempre achei que se o corpo padece, a alma vai junto e vice-versa. Isso se mantém, para mim, inalterado, mas algumas circunstâncias me levaram a acrescer algo a esta compreensão que nada tem de original. Ainda faltava dialética nisso.

A vida sob o capitalismo, entretanto, nos cinde (e não é aparentemente) entre corpo e alma, por mais que ainda possamos seguir afirmando a integralidade do ser em sua genericidade. Por isso quisesse eu ou não, minha vida era/é cindida assim, tal qual nos pôs a divisão social do trabalho própria do capitalismo. São poucos os momentos da vida em que você sente o religare entre estas duas propriedades cindidas do ser social. Não riam com o que virá, eu sou um homem muito doente e falo desde o que há de mais profundo em mim. Não seria bom ser ridicularizado por isso.

Conheci uma mulher de cheiro de baunilha, que fala pouco, mas fala bem. As pessoas tem seu cheiro, mas baunilha, era demais pra mim! Não bastasse o cheiro, não bastasse a pele, não bastasse o beijo, tinha uma alma que me envergonhava pela minha pequenez. Não demorou nada (nada mesmo) para que eu me sentisse completamente entregue àquele ser inteiro de modo tal que muito cedo eu já não conseguia saber o que era o seu cheiro de baunilha e o que era a sua personalidade absurdamente inteira. Mas não pensem que foi aí que revi minha compreensão.

Passamos um tanto de dias e noites entrincheirados em hotéis, como se não houvesse mundo (o que apenas era suspenso quando a necessidade de comer chegava no seu limite). Tão grande quanto o que vivíamos nesses quartos de hotel era a dor que apertava quando era hora de entrar no ônibus que me trazia de volta à minha cidade ou que a levava à cidade dela. A distância não era grande, mas era dolorosa. Era suportável porque, mesmo longe, a voz dela sempre presente me acalmava, me excitava, me fazia deitar e levantar inteiro.

Então o vento carregou seu cheiro para ainda mais longe (embora por mais que passem os dias, o seu cheiro siga forte em minhas narinas) e sua voz também se tornou menos presente. E as noites nos hotéis – eu sabia, mas agora sei ainda mais – já não seriam tantas noites. E foi aí que comecei a padecer. Primeiro delirei que me beijava o rosto quando estava quase dormindo, depois sonhei que desaparecia do meu lado. Então pude entender que não basta um corpo e uma alma. A minha pele sem a dela, derretia; minhas pernas procuravam, espasmáticas, as delas em minha inútil cama de casal, os meus olhos só a viam como presença espectral e, então, choravam, desesperados. O peito apertava, espremia como quem a procurasse abraçar de um jeito que nunca mais fosse pra longe. Os copos viravam da minha mão e eu tremia com a garrafa de whiskey.

Então padeci, por inteiro. Com os músculos inibidos e anima em baixa conta pude sentir a integralidade mente-corpo. Agora, não mais dividido de mim cartesianamente, mas newtonianamente pelos kilômetros que me separam dela, escrevo de um quarto (que não é mais de hotel) com paredes brancas, com a sensação de estar dopado e de que não é ela quem vai abrir a porta, mas um homem vestido num jaleco branco.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Um incomum dia comum

Hoje foi um incomum dia comum. Parecia ser um dia qualquer (e no fim, foi mesmo). Acordar, tomar banho, trocar-se, virar duas xícaras de café, pensar nela, sair de casa, tomar o ônibus. No trólebus a cena incomum se passou. Entro no ônibus, pago ao trocador, ele me dá o troco, passa o cartão, giro a roleta e me sento. Onde me sentei, dois bancos estavam dispostos um frente ao outro. O rapaz que estava de frente pra mim estava a meu lado esquerdo; ao lado dele, espaço vazio, ao meu lado, também. Uma velha se senta ao meu lado (na janela) e pede ao rapaz que troque de lugar para que ela coloque as sacolas. O rapaz passa para o banco em frente a mim, a velha põe no banco as sacolas e também os pés, o rapaz desce na parada seguinte. A velha abre uns exames médicos e os lê como quem já sabe o que cada um daqueles indicadores significa; fiquei imaginando que ela teria um câncer, não sei por qual razão, mas me parecia que ela tinha algo grave (muito embora seu estado físico não me desse qualquer pista disso) ainda que seu sorriso tivesse algo de galhofeiro. Galhofeiro, acho que isso que tinha no rosto dela quando pediu para o rapaz trocar de lugar. Uma cega entra no ônibus com seu cão-guia, um labrador preto, lindo. Meus olhos, naquele instante, pertenciam aquele cachorro. No bairro da República, uma mulher que parecia morar na rua e estava em crise joga para dentro do ônibus um pequeno papel que plana até cair no chão. Ela sai correndo em meio aos carros e abaixa, como que apanhando uma pedra (eu não vi a pedra, sei que não vi, mas eu sabia que era uma pedra), fecho as duas janelas que me estavam próximas e peço para a senhora do sorriso galhofeiro ao meu lado abaixar-se (ela não tinha percebido o que se passava), ela abaixa, a pedra bate no vidro, mas sem força, e o vidro nem racha. A louca sai, louqueando pelo meio dos carros, rumo à praça, o ônibus todo começa a comentar, aumento o volume do meu player, que tocava "Hallellujah", de Jeff Buckley. Fecho os olhos para fazer a lágrima que se insinuava no meu olho direito descer, a velha agradece por eu tê-la avisado, toma suas sacolas, pede que eu puxe a corda do ônibus e desce no ponto. E tudo voltou ao normal

domingo, 27 de outubro de 2013

Arrancar a barba
Cortar os cabelos
Pra não cortar os pulsos,
Não arrancar a alma
Se eu falo pouco
É pra não ter que mentir
Você fala e eu só ouço
Que é pra não ter que fingir
Uma flor no meio do asfalto não é uma flor rompendo, rasgando o asfalto
Uma flor no meio do asfalto é só uma flor comprimida, espremida, mutilada pelo asfalto

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Conselhos



Evite atalhos amorosos
Evite os amores fáceis
Evite as poesias dóceis
Evite presentes sem letras

Evite atalhos literários
Evite as compilações
Evite os livros de comentadores
Evite os comentadores de livros de comentadores

Evite os atalhos nas respostas
Evite a burocracia que nos faz impotentes
Evite a legalidade que nos faz covardes
Evite o silêncio quando é tempo de espernear

Evite o relógio
Evite a mansidão
Evite o prefácio
Evite a função

Evite atalhos,
Evite atalhos,
Evite atalhos,
Mas aceite o conselho.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Vai... e se der, volta...

Vai, viaja, se alegra, sorri
Volta, vem, vem inteira
Ajunta os pedaços que eu deixei

Ama, experimenta, voa
E se voltar, vem, vem inteira
Ajunta os pedaços que eu deixei

Se valer a pena,
Volta, vem, vem inteira
E torna a fazer graça com a minha graça

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Tipo um Blues


Era um Blues
Um Blues inacabado
O solo de guitarra, parado
Nem prato, nem bumbo

Era um Blues no "mei" do mundo
Com um encontro descabido
de três estranhos conhecidos
Era o fim da balada

Era um blues no "mei" do nada
O cantor emudeceu
A perna dela estremeceu
E eles fizeram um silêncio ártico

Terminam o Blues, monossilábicos
Um Blues de 11 compassos
Desarmônico, sem cadência, com fracassos
Era um Blues inacabado




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Para os dias que virão


Após a revolução e a emancipação das mulheres
Um homem de meia idade se queixava: - Perdemos os privilégios, agora elas nos tratam como um objeto, nos deixam a qualquer tempo, não cuidam de nós.
Após a revolução e a emancipação das mulheres
Uma mulher, jovem, adolescente, explicava: - Ganharam o direito de serem amados de verdade.

sábado, 21 de setembro de 2013


Tempo,
Primavera, verão, outono, inverno
Len-ta-men-te

Tempo,
Dia, tarde, noite, meio-dia
Ainda vagaroso

Tempo
Relógio de ponteiros
Adianta-se

Tempo
Ponteiro de segundos...
Pra quê tanto amor com hora marcada?

Tempo-burguês
Tempo-reaça
Tempo-capital
Tempo-de-classe

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Lá no meio



Meio São Paulo, mei sertão
Meio Marx, mei Lampião
Meio Joplin, mei Gonzagão
Meio Peixes, meio Leão
Meio virtude, meio paixão



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Entrepistas



Chuva que acaba antes de chover
Aula que acaba antes da hora
Dor que se sente e não se chora

Noite no céu sem estrelecer
Sangue que falta na veia
Aranha que para no meio da teia

Grito travado no peito
Garoto envergonhado no assobio
Menina parada no "mei" do meio-fio

Predicado não encontra sujeito
Gole de whisky engasgado
Choro nos zói entalado

Carro no meio da pista
Ponteiro no meio da contagem
Sem tempo pra meia-frenagem
Farol do outro lado se avista...



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Carnaval



Enquanto ela comemorava o carne vale,
aos gregos modos,
Era ele quem, de fato,
dava adeus à carne

Acompanhavam-lho
Hegel,
Göethe,
Engels,
Marx e alemães outros

Também juntava papéis mais
de menor importância
E buscava nas canções conhecidas
sonoridades desconhecidas
algum Fausto, Feuerbach, Mefisto ou Margarida
Mas da matemática musical (e de qualquer outra matemática) conhecia pouco

Escrevia, escrevia, escrevia
Fazia-o num crescente,
como cresciam os versos sem rima, sem métrica
a-p-á-t-i-c-o-s
Sem marchas, sem fantasias, sem beijos de carnaval
Acabava, assim, a última estrofe, em sete versos,
uma estrofe cabalística

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Fisicismo



Peguei meu "livro da sabedoria", mil quatrocentos e setenta páginas
Abri naquilo que eu achava ser o meio, página seiscentos e vinte um, letra F
"Fisicismo: Sm sistema que explica todos os fenômenos pelas leis da física: Os animais, os vegetais, os minerais devem ser considerados como valores e esse ponto de vista valorativo da ocupação humana do espaço não permite o Fisicismo em tais estudos." 
Justo hoje, que sinto não uma dor, mas um sofrimento, o dicionário resolveu me contrariar

Unidade-de-contrários...
Porra, Hegel! Não fode!
As palavras (ideação objetivada) dum lado; do outro, meu corpo - de um essente fisicismo - estremece
(fetichizo a mim mesmo ao opor dor e sofrimento assim tão-pouco-mediatamente)
Dicionário sem antônimos, te odeio!



segunda-feira, 11 de junho de 2012

Dois rios



 Caminho sobre a ponte que atravessa o rio.
 Há pouco chovia,
 agora, apenas o frio e o céu cinzento testemunham as águas caídas

 O rio sujo está muito mais sujo.
 Paro como Adriano Meis em frente ao Tibre, 
 mas não tenho bengala, nem chapéu, nem penso em saltar

 Simplesmente, tomo uma foto, duas...
 Sinto como se fossemos inimigos íntimos, pois ele se cala,
 como eu me calei por todo o dia (enquanto um rio me atravessava)

 Rio imundo!
 Não fosse tão sujo, inimigo meu,
 as pessoas te pronunciariam vagarosa e francesamente: ti-ê-tê!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Rachaduras

Rachaduras (Para ler ouvindo Lascia ch'io pianga, de Händel)





Sinto a vida (ou era um demônio?) a bater a porta e dizer que não havia porta, ela estava sempre aberta
E eu achava que estava seguro
Mas eles entraram
e me roubaram tudo
e acabaram com tudo
e me levaram os móveis
também as certezas
e, até mesmo,
as dúvidas
as boas dúvidas.
Eu achava que estava seguro
dos amores burgueses,
dos amores dos burgueses,
mas não estava,
ninguém está a salvo e sozinho
quando se está entre a luz e a sombra
do quarto que parece vazio.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Com (alguma) classe

Quem te diverte?
Quem te faz sorrir?
Quem te dá tesão?

Onde você sorri?
Onde levanta o copo?
Onde trepa?

O que te importa?
O que não deixa passar?
O que fará da tua vida?

Como levanta o copo?
Como você fala?
Como você trata a um e a outro?

Qual é a sua lista de amores?
Qual é sua lista de coisas inúteis?
Qual é sua lista de coisas úteis?

Seja lá a sua resposta, o faça com alguma classe...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Tempos...

Em Salvador, dizem, hoje faz frio
Em São Paulo sempre faz frio...
Hoje eu "frio"
Frio...
Fora e dentro...
Sei lá...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dois

Eles decidiram não fazer os acordos incumpríveis; seu único acordo era não fazê-los.
Eles resolveram viver um amor possível, e isso, acreditam, já é muito.
Eles sofrem tanto quanto aqueles das promessas incumpríveis e dos amores efetivamente impossíveis.
Eles apenas descobriram que a mentira não é um mal necessário.

CONCRETA

Ela é tão concreta que me atinge como as pedras lançadas dos estilingues palestinos
E é tão correta, que a verdade, perto dela, dói pouco.

sábado, 24 de setembro de 2011

Um método (por Tristônio, quando este se viu à beira de uma crise)



Quando um pensamento não encontrar resolução
Que ele seja quase obsessivo e ao mesmo tempo de difícil simbolização,
faça um experimento

Esterilize um objeto cortante (um estilete é o mais indicado)
lave o seu antebraço
Com cuidado faça um corte
Nesta hora você verá a pele se abrir com uma roupa de zíper
O corte não pode ser muito raso
Eu sei que isso é pouco preciso (não muito raso), mas você só terá a intuição a te guiar nesta hora
E você deve tomar cuidado para não atingir a veia,
Afinal, você não quer morrer, mas apenas resolver um pensamento

Seu braço deve estar sangrando
E esta é a hora em que, vendo o sangue correr, você deve começar a confrontar as suas ideias
Você terá pouco tempo, e nisto reside a eficácia deste método

Se os pensamentos não se resolverem a tempo de você sanar o corte,
não se preocupe,
eles já estarão resolvidos...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Na rodoviária

Na rodoviária espero
o ônibus
Sobre os meus ombros
o capital
a mercadoria
o dinheiro (e sua ausência)
a força de trabalho (esfolada)
E tantos outros ônibus se vão
levando a força de trabalho
que se apresenta ao mercado
sob a forma mercadoria
em troca de dinheiro.
Todos ônibus vão passando
mas o ônibusa que me levaria de volta para aqueles calorosos abraços,
esse,
insiste
em
não
chegar.

sábado, 23 de julho de 2011

Nada...

Saltar
Calar
Estranhar
Estagnar
Esgotar
Esquivar-se
Intimidar-se
Escafeder-se
Esconder-se
Sumir
Fugir
Sair
Explodir
Implodir
Sucumbir
Desistir

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sobre a arte de sentir o que não se quer

O teu seguro, o que ele te assegura? Ou ele te segura?
Eu seguro, seguramos... ou achamos que seguramos.
Seguros de quê?
Seguros de quem?
De que serve a segurança?
Quem criou a segurança?
Os vínculos, os laços, pra quê diabos deveriam segurar, prender, amarrar?
Teus lábios não deveriam beijar o mundo? E teus braços... também não deveriam abraçá-lo?
Por que me rasga saber que assim deveria ser?
Eu que luto contra a propriedade no fundo sei que, como Jesus Cristo nos palavrórios da Santa Igreja, "ela está no meio de nós".

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Vinte mil

Há vinte mil cacos no chão,
nenhum aspirador de pó,
nenhum tapete para encobri-los

sábado, 18 de junho de 2011

E se eu pusesse uma flor no teu cabelo?
E se eu te lesse poemas?
E se...
E...
...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Os reformadores

Os rodapés de Carvalho branco estavam afixados sem nenhum pingo de tinta
A pintura, aliás era de primeira, branco e vermelho, em tons e sobretons devidamente combinados
O assoalho de Ipê estava pregado como nenhum outro, nenhum ponto de dilatação, nenhuma fissura
E as paredes, então... elas tinham níveis, assim como o teto também tinha
A mobília estava impecável, era "velhamente" moderna
Mas os alicerces, os alicerces...
Esses sempre são deixados para depois pelos reformadores.

sábado, 11 de junho de 2011

Lá do alto

Lá do alto, Eles, com ar sério, conversavam:

- É preciso fazer algo pelos pobres!
- São muitas pessoas morrendo de fome, muitas mesmo.
- E os trabalhadores, que salário de fome...

Lá de baixo, um sem-fim de homens e mulheres caminhava tranquilamente (assim parecia pra quem via de cima). A conversa, dos de cima, prosseguia:

- Há que se fazer algo por essa gente, há que se fazer leis, decretos, campanhas. Essa gente precisa saber que eles são sujeitos de direito.
- Verdade, deputado, há que se fazer algo. Nós, da esquerda, temos que fazer algo, não podemos deixar o nosso povo na mão!

E enquanto acabava mais uma reunião do “Comitê para a salvação dos pobres” e os quitutes eram guardados, lá embaixo, os de baixo, se aglomeravam, sussurravam, trocavam papéis. Eram tempos de greve, eram tempos de atropelar todo o direito, eram tempos de acertar as contas com as gravatas e seus portadores, mas os de cima, os de gravata (ou mesmo os sem), os da linguagem do direito e do clamor aos coitadinhos, esses não sabiam o que estava por vir.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Sobre a arte de abrir-se (e fechar-se)

- As relações são, sempre, relações em aberto
Ela falava com os braços e mãos abertos e voltados para o imenso céu azul
- Mas, abertas como?
Ele perguntava, inseguro como os diabos
- Não disse abertas, meu amor, eu disse "em aberto"
- E isso muda as coisas?
E ela, sem dizer uma palavra, girou, mas não em círculos; se voasse, seria uma borboleta.

domingo, 22 de maio de 2011

Sobre a arte de enganar-se

Primeiro ela lhe disse: acabou!
Depois disse a si mesma: sou livre, tão livre quando a própria liberdade
E era tão livre que escrevia que era livre
(Talvez achasse que ao repetir, realmente tornar-se-ia livre. E tinha razão)

Quando olhava-se no espelho enxergava a própria liberdade
E já tomava a liberdade em tão alta conta que até mesmo a representou (de forma mais que bela) num diálogo de estátuas: a melhor representação que tinha do concreto
E foi quando ela não mais quis ser livre

Por fim, ela quis se libertar da liberdade e de todas amarras do ar-livre
e ao fazê-lo buscou no mundo aquele que lhe arrancara toda liberdade, toda espontaneidade
Mas já não era tempo
Ele escolheu a liberdade... dela.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sobre a arte de "invernar"

"Vai viaja foge daqui que a felicidade vai te atacar pela televisão" (Tom Zé)

Na cidade-mais-que-concreta inverna antes de outonear. O frio desponta subitamente sem respeitar as legalidades daqueles forasteiros que vieram por aqui se instalar e nem mesmo as dos que ao frio se acostumaram... As árvores congelam antes que as folhas comecem a cair e tudo o mais por aqui se precipita... eles se precipitam... e eu me precipito... o precipício...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Uno


O átomo, a célula, o indivíduo, a propriedade, o amor a dois, a fusão... "Que reste-t-il de nos amour?"

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Acordar (por Tristônio)


Acordei vendo a cor do céu,
fiz um acordo com o céu (que estava nublado),
um acordo que envolve a corda,
enquanto vejo o céu

Acordo de novo (todo suado)
Era outro sonho
sonho por cima de sonho,
mas ainda sinto a corda no pescoço

Enquanto a água do chuveiro cai,
olho para o cano
e ele parece resistente
... para a corda

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Mudança ou "sobre o processo de mudar-se (mudação)"

Toda muda carece de cuidados muito próprios
Há aquelas que crescem melhor em estufas, outras ao ar livre, outras em um solo especialmente preparado
Seja esta ou aquela muda, a própria muda muda

Mudar é crescer
E mudança, então, é aquele processo pelo qual a muda muda
e, por isso, apesar de mudar, já não é mais muda, embora ainda mude, embora sempre mude

A sina da muda é mudar,
mudar até deixar de ser muda, morrer como muda
e ganhar outra existência como muda-que-não-é-muda

“Tudo o que existe merece perecer”, disse o grande filósofo alemão
Mas mesmo as mudas?
Sim, mesmo as mudas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um sonho *


Um velho amigo sonhou comigo.
Estávamos numa fila e ele puxara assunto com uma moça.
A moça - contou-me ele - estava falando da própria vida com o meu camarada. Eu, estava apenas de observador.

A moça lhe disse: - Precisei mentir duas vezes, pra que ele acreditasse em mim.

O sonho não foi meu, mas esse velho amigo sabe demais da minha história pra que eu despreze esse conteúdo.

Sigo então, minha sina com os sonhos. Os meus e os dos outros.

* O sonho, como tudo aqui escrito, foi de verdade.
** Na imagem: Loki, deus da mitologia nórdica.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vozes...





Não se preocupe com os trinta dias de cama, a febre apenas acusa que a cura se avizinha
(A voz baixa de uma enfermeira)

Desconheça-se
(Uma moça sussurrava ao meu ouvido, no balcão de um bar)

Ei, você tem sonhos, desejos?
(Perguntava uma amiga, sem saber que me martelava a alma)

Enquanto ela vive, eu escrevo
(Pensei)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Três diálogos

- Olá! Você tá sozinho?
- Sim, resolvi sair pra tomar algo.
- Aceita?
- Hum, não sei. O que é isso?
- É “mentira”, com um pouco de vodka.
- Melhor não, nunca me acostumei a drinks exóticos.
- Olha que você vai gostar, hein?
(ele toma um gole)

***

- Alô?
- Oi, quem fala?
- Sou eu, amor! Liguei pra dizer que estou morrendo de saudades e não vejo a hora de chegar amanhã e voltar pra casa.
- É, tentei te ligar o dia inteiro hoje, mas só dava na caixa...
- É que o sinal aqui é péssimo, cê sabe, né?
- Verdade. A que horas te pego na rodoviária?
- Não se preocupa amor, eu pego um táxi, ainda não sei que horas saio daqui. Os ônibus aqui estão uma merda!
- Nesse caso, eu preparo o jantar! Te amo!
- Também te amo!
(Do outro lado da linha, um homem tira o salto da moça enquanto lambe os seus pés.)

***

Eles se encontraram, por acaso, num café.
- Nossa! Há quanto tempo!
- É, já faz cinco anos...
- Cinco anos que...
- É, cinco anos. Mas me conta, o que anda fazendo?
Disse ela, tentando defenestrar o assunto
- Eu, bem... ando fazendo minhas coisas. Nada muito diferente de quando estávamos... quero dizer, de quando a gente tinha contato.
- No fim, sempre foi o que você gostou de fazer, ou não? Vou supor que está feliz.
- Sim, claro. E você?
- Se eu tou feliz? Ah! Muito!
Ela não fora feliz ao seu lado, pensava ele enquanto tentava disfarçar o indisfarçável constrangimento daquela situação.
- E você já casou?
Perguntou como quem fazia uma brincadeira.
- Não morre mais! Júlio, vem aqui, quero te apresentar um amigo, o Pedro.
Com um sorriso mais-que-simpático no rosto, Júlio aperta a mão de Pedro.
- Muito prazer, Pedro.
- Igualmente.
Pedro sabia que ela nunca havia falado dele para Júlio e isso, estranhamente, lhe doía mais que o fato de que ela estava casada.
- Bom, eu preciso ir, tenho muita pressa, deixei algumas coisas na universidade e... bem, tenho que ir.
Saiu Pedro andando como um bêbado, sem nem esperar um “tchau”.

Hélio

PARA LER OUVINDO: "Jesus, a alegria dos homens", de Johann Sebastian Bach





Hélio era leve como o gás que lhe dava o nome
Era leve a ponto de ser motivo de irritação entre os que o rodeavam
(aliás, era impossível rodear hélio)
Hélio era nobre, completo

No escritório era um tanto destacado, assim como na tabela periódica
Hélio era a calma quando tudo era tormenta
E era a calma quando tudo era calma também

Quando Hélio dançava, não importava o salão cheio
Ele passava com o seu par, lindo, entre todos
E sorria um sorriso leve

Ele sabia que era leve
E tinha tanta certeza de sua leveza
Que um dia resolveu prová-la ao mundo
(o mundo, aliás, já estava convencido disso)

Foi até o terraço do prédio em que trabalhava e subiu na balaustrada
Mirou a calçada e saltou
Achou que evaporaria, mas se estatelou no chão

sábado, 15 de janeiro de 2011

Em uma noite

Uma Jam Session à beira do mar,
A própria beira do mar,
As estrelas e
Uma lua-quase-cheia.

Ah! Por quatro horas esqueci que algo ainda doía...

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sol

* PARA LER OUVINDO "A SUMMER PLACE", DE PERCY FAITH





César - um grande amigo -, que andava muito triste, me disse: se, no fim dessa merda, só houver escuridão, a gente desenha um sol.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Partos

Tive um sonho destes esquisitos. Aliás daqueles muito esquisitos.
Eu segurava um fuzil, apontava para o meio de uma floresta; eu tinha certeza que algo de ruim estava por vir e eu precisava acabar com este algo ruim antes que fosse tarde e seja lá o que ele fosse.
Do meio da floresta sai uma jovem montada numa égua, uma égua muito gorda, aliás.
A jovem se aproxima e eu ponho a arma no chão.

- Será que você poderia folgar a cilha da minha égua?, Perguntou a moça.
- Sim, claro. Apresso-me em desabotoar a cilha.
- Esta égua está prenha?. Acrescentei eu.
- Está!

A égua entrou em trabalho de parto e foi quando eu percebi que a jovem moça também estava grávida. O lindo potrinho destrambelhado tentava caminhar, sem sucesso. Algum tempo depois, a jovem entra em trabalho de parto. Não tenho recordações do momento do parto. Apenas lembro de acarinhar a moça logo após o nascimento do bebê.

- Você é daqui?. Perguntei.
- Não, meus parentes são de longe. Respondeu a moça.
- Sendo assim, vocês dois ficam comigo até alguém aparecer.

Este sonho renderia mesmo muito material pra análise. Mas antes de me precipitar nos braços (ou no colo) de um analista e ficar sob sua direção, estou atento. É hora de parir, é hora dos partos!

Leve...

*PARA LER OUVINDO "JORGE MARAVILHA", DE CHICO





Sinto-me leve como uma pena
e eu que já tive pena de mim, do meu estado
Hoje pareço um Estado,
um Estado liberado, território livre da exploração, território livre da opressão
(e, por isso, Estado em vias de deixar de sê-lo)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um ano novo (eles dizem)

PARA LER OUVINDO "CLAIRE DE LUNE", DE DEBUSSY (É SÓ APERTAR O PLAY)




Dizem que um ano novo é uma espécie de novo ano
(eu discordo)
Como de costume, fugi dos festejos
(mas estava bem perto deles)
Família reunida
(e unida, eles juram)
na casa de praia

Às 23:10 fujo para longe deles,
caminho até a praia,
deito na areia,
o céu estava estupendamente lindo
(como há tempos, não o via)

Os fogos já estão estourando
O espetáculo é mesmo belo
(os humanos bem poderiam soltar fogos todas as noites)
Na minha cabeça, uma canção começa a tocar: Claire de Lune
(mas numa espécie de piano mais triste)
E um ano inteiro me passa a cabeça
(na verdade, quase dois)

Dores
Crises
Choro
Inseguranças
Mentiras-quase-verdades
Um lugar seguro
Um cais desabando
Um amor
Os dias em que eu quis não existir
Os dias em que eu não existi
Os dias em que quase deixei de existir
Uma conquista sem comemorações
Uma cidade assombrosa
Uma cidade fantasma
Pessoas assombradas
Pessoas fantasmas
Os poucos amigos
(e bons amigos)

"Claire de Lune" cessa
Estou com as mãos cheias de areia sobre o rosto
Na boca, um gosto de areia
Nos olhos, uma dor insuportável
Meu peito, sangra.

Desculpem-me se as palavras estão em desarranjo,
mas assim foi aquele dia primeiro
assim foram as imagens que saltavam
(a mais plena consciência do fim).

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Às seis horas (por: Tristônio)

Para ler ouvindo a "Cello Suite, no. 1, de Bach"



Ele levanta do seu último e conturbado cochilo
Vai à cozinha e enche o copo com o que resta do café frio do dia anterior
Senta-se à mesa
Apanha o isqueiro ao lado do saco com pães
Acende um cigarro
Vira o café
Olha o relógio: cinco horas e trinta minutos, o sol ensaiava se por (mas, dizem, nesse dia insistiu em permanecer por algum tempo, como se esperasse algo)
Pela primeira vez, em muito tempo, seus pensamentos estavam como que vazios, sem tormentos
Mas ele sabia que estavam lá, todos eles
Seu semblante era de quem não temia a nada (e não havia o que temer)
E, parece, perdoaria até mesmo o pior dos seus inimigos
Terminado o cigarro, caminha lentamente até o quarto
Abre uma caixa de sapatos
Pega algo
Volta à cozinha
Acende mais um cigarro
Vira o resto do café
Olha o relógio: seis horas, em ponto
Encosta o objeto sobre a região parietal da cabeça
Do outro lado voam, junto com pedaços da sua massa cinzenta, a bala .45 e todos aqueles pensamentos que o atormentavam


Eles, finalmente, se foram.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Viajar

O trecho era São Paulo-Salvador, de ônibus
cerca de 35 horas de viagem
a uma velocidade média de 80 km/h

Dentre muitas coisas,
lá pelo meio da viagem, pensei:
se demora tanto pra chegar, quanto demorou para construir?

A quantos km/h operavam os trabalhadores?
Quantos trabalhadores por metro quadrado?
Quantos mililitros de suor por segundo?
Quantos acidentes por dia?
Quantas mortes por mês?

Dentre tantos pensamentos, em trinta e cinco horas de uma cansativa viagem, esses foram os mais lúcidos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O paciente

* Para ler escutando o áudio



Na Unidade de Terapia Intensiva, o paciente cambaleia (entre a vida e o nada)
O Oxímetro acusa saturação menor que 60%: parada respiratória...
O coma induzido, já não é mais induzido
E, finalmente, o monitor cardíaco sonoriza o que todos já sabiam.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Equação

Alguns quilos a menos,
Todas as lágrimas fora,
Menos noites de sono,
Mais dias irritantes,
Um coração partido,
Menos roupas no armário,
Uma meia vida (mais ou menos),
Uns passos a dar

Resultado: ...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Dando um tempo...

Querid@s amig@s,

O fim do ano se aproxima e eu aproveito pra dar um tempo deste espaço em que expresso em tortas linhas as coisas que me afetam. A vida precisa voltar pra algum lugar, não pro mesmo lugar, mas para qualquer coisa que rume em espiral dialética.

Então, boas festas a tod@s,

bruno.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Chuva

Raras são as vezes em que o céu plúmbeo, as nuvens e a chuva me incomodam
Sempre gostei deste entristecer meterológico
Hoje chove, e muito

Se Deus existisse, hoje eu o mataria!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Segundo dia sem ela...

Uma reflexão sensata me obrigaria a simplesmente aceitar os fatos
mas faz tempo não tenho conseguido ser sensato
e tampouco consigo refletir

Eu pus tudo a perder
mais uma vez
a culpa é minha

Agora ela descobriu o que é viver
e o que me fode
é que eu não tava lá

O que me fode, é que eu fodi tudo
e eu já não sei mais viver
e nem quero

Então, desculpa, meu amor (deve ser a última vez que eu digo isso)
Essas linhas devem ser as piores que eu já escrevi
mas também as mais sofridas...

Fragmentos de "Os sofrimentos do jovem Werther" (Goethe)

* Para aquela que um dia me amou

"Às vezes não consigo compreender como outro pode amá-la, ousa amá-la, uma vez que eu a amo tão unicamente, tão profundamente, tão perfeitamente; uma vez que nada conheço, nada sei e nada tenho, além dela.

[...]

Ah! Esse vazio! Esse vazio terrível que sinto em meu coração! Penso muitas vezes: 'Se eu pudesse uma vez, uma só vez, apertá-la de encontro ao meu peito, todo esse vazio seria preenchido.

[...]

Ao constatar quão pouco significamos uns para os outros, tenho vontade de rasgar o peito e arrebentar a cabeça. Ah! Ninguém poderia me dar o amor, a alegria, o ardor e o prazer que me faltam, nem poderia fazer feliz quem, diante de mim, mostra-se sem ânimo, sem forças.

[...]

Tenho tantas coisas em mim, mas meu sentimento por ela absorve tudo: tantas coisas que, para mim, sem ela, tudo significa nada.

[...]

Faz parte do destino humano cada um de nós carregar sua cruz e beber até o fel de seu cálicee até a última gota. Se mesmo o Filho de Deus considerou o cálice demasiadamente amargo para Seus lábios humanos, por que devo fingir, considerando-o agradável? E por que deveria envergonhar-me, no terrível momento em que todo o meu ser oscila entre a vida e a morte, quando o passado surge como um relâmpago alumiando o abismo sombrio do futuro, e tudo desmorona em torno de mim, e o mundo inteiro parece se extinguir?"

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Primeiro dia sem ela

Hoje é meu primeiro dia sem ela
Deve ser o que dói mais
Sem contar aqueles dias em que encontro no mundo as coisas que me lembram ela

Então,
Se você notar algo diferente no meu rosto durante os próximos meses,
Tenha a gentileza de não me perguntar como estou.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Frio

São Paulo, 03 de dezembro de 2010, sexta-feira, calor escroto: 30ºC.
Mas, dentro do meu peito, neva...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Merda-para-si

Há coisas que se fazem sentir no fundo do cu
Não porque doem, não porque baixas
Mas porque sujas, mas porque fedem

Coisas mais escatológicas que a merda-em-si
Coisas escatológicas para-si
E não há cu que se salve da coisa

Cu! Com acento ou sem acento...
Cu! Com assento ou sem assento...
Cu! Sentado e em pé

Em meio a tanta escatologia-para-si
Não muito tenho que oferecer
A não ser o meu cu

A coisa

Ontem, pude sentir ferver aquelas coisas que por dentro se degladiavam
Ontem, quase tive a minha primeira crise
E então, controlei-me,
Mesmo apesar de todo o sufoco

O gatilho veio de fora,
Mas a bala que pode me acertar
Está aqui dentro,
Devo guardá-la dos inimigos

É hora de mudar a forma
Antes que toda forma se exploda,
A casca chegou ao limite do conteúdo
Ou rompe ou implode

Algo se está montando
Não posso revertê-lo
Apenas adiá-lo,
Apenas enganar a coisa

Ou a coisa me deforma
Ou pior, a coisa me reforma
É bom tratar bem...
Porque essa coisa - vez ou outra - transforma

A aula

O corpo marcado, cansado
O sono calado, deitado
O professor à frente, ditado
A aula morosa, d-i-t-a-d-a

Dias difíceis

Apesar do sol e do calor que ele traz,
O céu está enevoado.
Nuvens cinzas, quase pretas
E o dia está muito cinzento

Apesar do título e do prestígio que ele traz,
A sala de aula está enevoada.
Nuvens empoeiradas, quase obscuras
E o dia continua muito cinzento

Apesar dos homens e da liberdade que eles pregam
O dia segue emburrecendo.
Nuvens estúpidas, quase burras de tanta pretensão
E o dia... Ah! O dia permanece cinzento

Catarse

Universo, choro, catarse, frustração
Cidade, morro, pulso, suicídio
Mulher, homem, desejo, castração
Raiva, ódio, classe, palavrão
Roxo-preto-amarelo-rosa-cinza-azul-laranja-verde-roxo,
Vermelho não!

O cientista e a academia

Em suas idiossincrasias
Reproduz-se a sociedade na velha academia
Não falemos mais em classes, não invoquemos mais a Marx
Viva a democracia!

Mas se queres perverter santa instituição
Ousando proferir as velhas e mofadas injúrias
Levantar-se-ão como muita fúria
E ao réu dirão: não publicaremos sua produção

Mas os meios de existência do pretenso cientista
Vêm da tinta que escorre da sua pena
E quando a certos momentos lhe arrancam os meios
Vejo por-se de fora a cabeça da serpente fascista

A ciência

Na ciência tudo está colorido
Tem pra todo gosto
Quase todas as cores
Mas, do meio do arco-íris
Expulsaram o vermelho

L'université

Na universidade, não há vagas para a minha classe
Lá não se pode nem falar em classe
Perjúrio, heresia, leviandade

Na univerdade, enterraram a coerência
E expurgaram toda resistência
E hoje, como as coisas do museu, são excêntricas raridades

“L'université”. Em francês é mais bonito
E muito elegante
Mas na França, “Dans l'université” também não se pronuncia “classe”

sábado, 6 de novembro de 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

"Ponto de vista" (dedicado a todos os pós-modernos)

Na cidade de Taubaté,
à frente de um restaurante,
cruzei com um homem que puxava uma carroça (isso nos deveria soar estranho), carregando papelões
Do restaurante, saiu outro homem (ao que parecia, o dono do lugar), que disse: se quiser, pode pegar estes papelões na caçamba da minha caminhonete.
Vendo a cena, uma velha exclamou: que solidariedade!

Não sei... mas eu só via um homem carregando papelões.

domingo, 10 de outubro de 2010

Vende-se

Hoje, morreu um camarada
Na entrada do cemitério, muitas flores
E uma placa onde se lia:
"Vende-se"

Ao sair do cemitério, notei que fazia algum tempo que eu não comia
Mesmo sem fome, decidi que precisava fazer uma - ainda que amarga - refeição
Em frente ao restaurante, um menino-faminto pedia moedas diante de uma placa, onde se lia:
"R$ 21,90 o quilo"

Ainda vi uma velha, uma velha pobre ser atropelada em frente a um hospital
Uma ambulância levou-a para outro hospital, não aquele em frente onde a velha fora atropelada
Não havia placas, mas houvesse, leria-se:
"Vende-se leitos"

Ao chegar em casa, um recado na secretária eletrônica dizia:
"hoje tem confraternização, traga doze cervejas"
Não fora dito, mas bem poderia dizer:
"Vende-se um encontro entre amigos"

Hoje, eu bem queria dizer
Até tentei fazê-lo
Se eu pudesse dizer, diria
"Não estou à venda"

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Poesia do Grupo Dolores Boca Aberta

"Metranca neles
Cultura neles
Escola neles
...Trator neles

Metranca neles
Saneamento neles
Asfalto neles
Terra neles, fecha a tampa

Metranca neles
Shakespeare neles
Asfalto neles
Terra neles, fecha a tampa

Metranca neles
Shakespeare neles
Esporte neles
Abobrinha neles
Nabo neles
Arciboldo neles
Antropólogo neles
Terra neles, fecha a tampa

Metranca neles
Dinheiro neles
Direito neles
Marx neles
Metranca neles
Remédio neles
Alta tecnologia neles
Casa neles, fecha a tampa

Metranca neles
Luz neles
Foco neles
Câmera neles
Eles neles, tampa o ralo."

PSDB, PT, PV.... Dá tudo no mesmo

Parafraseando o Grupo Dolores Boca Aberta: "Eles neles!"



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Um assassinato...

São cinco da tarde e a casa está pronta para receber o seu primeiro cliente. Fora uma tarde como as outras: maquiagem, cabelo, unhas, escolha das roupas, ordem das apresentações, tudo na mais perfeita ordem... As “meninas” – diz a dona da casa ao primeiro cliente que, inquieto, aguardava a ordem para que entrasse – já estão prontas!

***

O leitor deverá permitir-me uma interrupção, ela é necessária. É preciso apresentar o primeiro cliente, um personagem importante desta história singela. Seria um homem até atraente, não fosse o fato de que seus fracassos dos últimos anos lhe tivessem brindado uma salutar barriga e um ódio inaudito pela humanidade. Quando o vi a primeira vez, até o achei belo, mas logo se revelou asqueroso. Quando tinha trinta anos, seu pai, um velho e rico empresário, morrera e deixara para o recém-formado administrador de empresas a responsabilidade de cuidar dos negócios. Não preciso aqui mencionar de que tipo de negócios se tratava; em nossa narrativa, esta informação é absolutamente indiferente. Depois de um extravagante fracasso na condução dos negócios da empresa, nosso personagem conseguiu não só perder todo o respeito que tinha na alta cúpula da sociedade, como também foi responsável pelo fato de que este seleto círculo também passasse a ter desprezo pelo seu velho pai.
Um burguês, apenado do nosso personagem, pois que amigo do seu velho pai e portador de um coração, por assim dizer, sensível, logo lhe conseguiu um cargo na direção de uma das melhores escolas privadas de nossa cidade. Era daqueles trabalhos que não o faziam o pior dos seres na escala da divisão do trabalho, mas tampouco lhe oferecia grandes poderes de mando quando se tratava de finanças. Mas, apesar de tudo, tinha pompa, o que causara alguns problemas para o seu empregador. Na escola, além dos alunos, ninguém o respeitava. Torno a dizer, era um ser desprezível.
Nesta escola, o bondoso proprietário concedia aos filhos dos trabalhadores o direito de frequentá-la, desde que cumprido um sem-fim de “exigências exigentes”, aliás, exigentes até mesmo para um universitário. Vez ou outra, nosso administrador de empresas, agora diretor de escola, atacava de pedagogo ou qualquer coisa do tipo. Seu alvo predileto, os filhos e filhas dos trabalhadores.
Havia uma mocinha, quinze anos, filha do motorista da escola. O motorista, não fazia muito, recebera a notícia de que portava um câncer e, como não poderia deixar de sê-lo, o câncer não costuma ser muito generoso com os pobres. O velho, viúvo e doente, apenas contava com a sua jovem e bela (frise-se: bela) filha e sua velha irmã solteirona, a quem sustentava. De vida, não lhe restava muito tempo. Mas fora o suficiente para que suplicasse ao patrão que lhe prometesse a continuidade da filha na escola até o fim do colegial e que empregasse sua irmã como faxineira na escola. Apenas conseguiu que lhe fosse garantida a primeira das promessas, horas antes de falecer.

***

Era uma aula de história. O professor estava irritado com a nossa jovem aluna e recém-órfã. O motivo: a ela era impossível entender a colonização da América com a idílica visão de seu mestre a respeito dos colonizadores. Se havia algo que seu velho sabia e a havia ensinado, era história; disso ela entendia e jamais deixaria de defender o seu pai, mesmo que se tratasse de uma aula de história. Sua presença era altamente perturbadora naquele ambiente crédulo e conformado formado pelos filhos dos “outros”. O professor, temeroso de que isso pudesse tornar a ocorrer, mandou-a para o seu devido lugar: a sala do diretor. Uma advertência: os fatos que se seguiram são aqui contados de forma breve, uma vez que não consigo me lembrar de todos os detalhes da história e, ainda que os lembrasse, eu os precisaria matizá-los para que me fosse possível escrever sobre eles. Assim se seguiu o diálogo.
- Me mandaram até a sala do diretor. - Dizia ela.
- E o que você andou fazendo?
- Eu? Estudando. – Proferiu orgulhosa.
- Como ousa? – Indagava irritado o diretor.
- Como ouso estudar?
- Sua filha de uma puta! Quem você pensa que é? Você acha que é igual a eles, acha? Ou você esqueceu que está aqui porque ainda tínhamos alguma pena daquele velho de merda, também conhecido como seu pai?
A menina tremia, em seus olhos as lágrimas jorravam; apesar de tudo, estava emudecida. Diante daquele silêncio, o asqueroso diretor avançou-lhe com um tapa e obteve como resposta mais lágrimas, e o mesmo silêncio.
- Olha aqui, sua putinha – dizia ele enquanto a sacudia segurando em seus dois ombros – não pense que eu não sei o que você anda fazendo no fim das aulas! Não pense que eu não sei que tipo de putaria você anda fazendo com aquele fedelho!
O silêncio (dela) reinava.
- Se é puta o que você quer ser, agora mesmo você vai aprender! - Gritava.
O que a isto se seguiu me provoca repulsa tal que sequer consigo relatar. Resta apenas informar ao leitor, que, da parte daquela criança, apenas se ouviu o silêncio, o mesmo silêncio, e muitas lágrimas mais. Ademais, quando dois meses depois, terminou o ano letivo, a menina não mais voltou à escola. Ninguém tinha notícias suas, nem os colegas, nem os professores, nem o dono da escola, e nem mesmo aquele que fora o seu primeiro namoradinho.

***

Já se passaram quatro anos entre aquele acontecimento que se sucedeu em nossa cidade e o momento em que o nosso primeiro cliente esperava a porta. As três jovens que o receberam o cortejaram como a um príncipe. O “príncipe” também sabia que o dinheiro o fazia menos asqueroso (até, então, as pessoas de nossa pacata cidade nada sabiam daqueles fatos, mas ele já era considerado asqueroso) e mais “desejado”. São as regras do jogo: mais cifrões equivalem a, por assim dizer, mais mimos. Com uma caixinha, as meninas desta casa fingem que gozam; sem caixinha, elas nem fingem. Com mais um pouco, seu pau é enorme; sem mais um pouco, ele é apenas mais um pau, simples e ordinário.
O som da casa está baixo, as coisas ainda estão por começar. O cortejado senhor senta-se numa mesa ao lado do balcão junto às três moças que o paparicam mais e mais a cada drinque pago (são normas da casa). Era a primeira semana do mês, então os clientes estavam mais dispostos a gastar. Aos poucos, a casa ia se enchendo...
Havia uma jovem, dezenove anos, exuberante. Era alta, tinha as pernas compridas (e não eram finas) e os cabelos curtos, seus olhos pareciam duas janelas de um prédio em chamas. Vestia uma calça baixa (muito baixa) de couro sintético, e um top do mesmo material. Ela fumava de um jeito imponente, o cigarro na sua boca já era uma fonte de excitação. À diferença de todas as outras, não paparicava a ninguém. Se lhe ofereciam um drinque, aceitava, e logo apresentava ao seu benfeitor um ar de desprezo e ironia. Esta jovem odiava a todos aqueles homens, o que era óbvio, e, precisamente, por isso, era a mais desejada.
- Quem consegue trepar com ela hoje? - Essa era a pergunta que todos faziam.
A esta altura, a casa estava num frenético movimento. Os homens mais jovens, mais belos e mais endinheirados foram disputar a morena dos olhos de fogo. Ás duas da manhã, todos eles, um a um, foram dispensados.
Três da madrugada: o nosso diretor de escola estava bêbado, as mulheres da casa que estavam no salão estavam quase bêbadas e, o que é mais importante, a nossa jovem exuberante estava muito mais que bêbada. A dona da casa estava preocupada, mas preferira não intervir, afinal, essa moça excêntrica, que chegara há pouco mais de uma semana, prometia.
- Eu, eu amo a escória! – Gritava a jovem.
A moça irascível seguia: - Quem é capaz de se ajoelhar aos meus pés?
Muitos se ajoelharam. Não pense que aqueles homens eram ridículos por estarem fazendo isso (embora fossem ridículos, muitos de nós teriam se ajoelhado. Ela era irresistível!). Isso, ainda não fazia daqueles homens, a escória.
- Lambam minhas botas, seus cachorros!
Desta vez, poucos obedeceram. A seleção prosseguia.
- Lambam a sola das minhas botas, idiotas!
Agora, só restara mesmo o nosso diretor. Três movimentos: ela lhe cospe a cara, lhe empurra no chão com o pé que estava levantado e o levanta de volta, puxando-o pela orelha, de um modo que não se faz nem mesmo com aqueles animais que estão rumando para o abate. A cena era humilhante.
- Agora, seu corno, sim, você é um corno, onde tá a puta da tua mulher agora, seu merda? Agora, seu corno, agora nós vamos trepar. E sabe de uma: eu não vou sentir nada. Ninguém é capaz de sentir algo por uma coisa tão abjeta como você, seu comedor de menininhas! – Falava enquanto o puxava pela orelha.
- Como alguém pode ser tão baixo? Você é um lixo! Mas, agora, vamos acabar com isso logo.
Tendo chegado ao quarto, ela o jogou na cama e tirou a roupa com uma formalidade e frieza tamanha que era impossível excitar-se mesmo com aquela estupenda mulher.
- Vai, tira a roupa, tá esperando o quê?
Ele obedece e estava verdadeiramente excitado.
- Como você é nojento! - E o homem seguia mudo.
- Pelo menos que seja rápido, aliás, será rápido, um homem como você não deve demorar mais que dois minutos.
Ela põe uma música, que dizia “we don’t need no education”. Ela senta sobre ele sem nenhuma empolgação, e começa um vai-e-vem que mais se assemelhava à regularidade de um relógio. Tic-tac, tic-tac... A mulher, percebendo a chegada do êxtase masculino, pressiona-o com sua mão contra o queixo dele; a garganta dele estava à mostra... Uma navalha na garganta acabava de cortar o gemido de um gozo que estava por vir. Ela sai de cima do homem, veste suas roupas e vê aquele homem sangrar enquanto, em vão, tenta estancar com a mão o corte. Ela sentia algo de pleno. Jamais imaginaria que um crime lhe pudesse brindar uma sensação tão elevada.
Esta moça de dezenove anos, sumira tão de repente quanto aquela criança de quinze anos sumira há quatro anos atrás. Não tivemos mais qualquer notícias desta moça.



***
Espero que vocês não estejam achando que a filha do motorista fosse essa mulher, pois não era. É bom levar a coisa a bom termo. É provável que esta narrativa tenha induzido a esta conclusão que, como disse, não é verdadeira. Ao mesmo tempo, esta revelação pode colocar a seguinte questão: quais foram os reais motivos do assassinato? Tais motivos são desconhecidos pelo narrador que ora escreve.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Bilhete suicida (por: Tristônio*)

O mundo feito pelos seres humanos
Não foi feito para estes mesmos homens e mulheres
O mundo não cabe mais em mim
E eu... eu não caibo mais no mundo...


*Tristônio é um suicida em potencial, mas apenas em potencial: tentara se matar três vezes e, como a maioria das coisas que fez em sua vida, fracassou todas as três.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Pensei em saltar...

Se eu saltasse de muito alto,
do alto deste prédio
Quereria planar como um pássaro, só um pouco,
antes de cair

Quais seriam meus pensamentos?
Seriam livres como o vôo livre?
Ou seriam angustiados como a inevitável morte?
Teria eu pensamentos neste sagrado momento?

Com o vento empurrando a face,
acho que não haveria espaços para pensamentos, haveria?
Não posso responder essas perguntas...
Acho que não é hora de saltar

Ainda não...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Contra a luta de classes, a diversidade

Hoje celebrou-se a diversidade
Lindos homens, mulheres, transformistas e travestis
Desfilavam pela rua

Eles queriam muito ser diferentes
E eles queriam tanto ser diversos
Que eram todos iguais

Salvo os homens e mulheres que catavam latas,
Eu não conseguia identificar minha classe
Eles pareciam muito com os da outra classe

Pareciam tanto, que se vestiam igual
Vestiam todos a diversidade
Ao tentar ser diferentes

Os homens e mulheres da outra classe que gostam, que beijam, que lambem, que amam, que se deliciam com aqueles do mesmo sexo
Não ouvem, não sofrem, não choram, não escondem
As mesmas coisas que aqueles da minha classe

Eu procurei a minha classe
Mas ela era tão diversa
Que se parecia com eles...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Escritos depois de um (longo) curso

Corpos destruídos
se eclipsaram
E apesar disso,
O pulso ainda pulsa (dizia o cantor que não sabia o que dizia)

Pela primeira vez, consegui olhar com detalhes aqueles corpos
Eu tinha o controle
Tinha que ter o controle
E os queria deixar d-e-s-t-r-u-í-d-o-s

Não pensem mal de mim
Eu tinha objetivos pedagógicos em mente
Destruí-los
Era a melhor forma de fazê-los pensar no que fazer com os cacos

Foi triste e delicioso
Vê-los aos cacos
Eu também estava aos cacos quando uma jovem moça disse:
Você nos fodeu!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sexo de Equivalentes

- Vou gozar...
- Eu também, vem Paulo, vem!
- Gozei...
- Mmmmmm... foi maravilhoso!

Ele sabia que ela não chegou lá, mas, como de costume, achou melhor não comentar. Sentou na cama e acendeu um cigarro enquanto ela lhe abraçava o pescoço como um gato que se esfrega nas canelas do seu dono.

- Você me chamou de paulo...
- Jura?
- Sim.
- Paulo é o nosso gerente do banco, lembra? Passei o dia resolvendo coisas no banco.

Mas isso pouco importava ao nosso amante. Era outra a pergunta que queria fazer.

- Você gozou? - Perguntou, timidamente.
- Sim, foi divino.

Ele se cala. Agora sabe mais ainda que ela não gozou. Pensa: "Num mundo regido pela lei da troca de equivalentes, quem goza primeiro, ri melhor. Quem sabe se o Paulo..."

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quando eu nasci

I

Lembro que quando eu nasci, Deus disse: fracassarás!
Não dei muita importância, afinal, mesmo sendo um bebê, era óbvio para mim que a maioria das pessoas fracassam.

II

E eu cresci, larguei a chupeta mais tarde que a maioria dos bebês; o leite da minha mãe também acabou antes. Como vêem, fracassei ainda quando bebê.

Cresci um pouco mais, e ainda me lembro, que eu não conseguia decorar por completo o alfabeto, a, b, c, d... g, h, i... v, x, z...; eu apenas lembrava algumas sequências de letras. Depois aprendi o alfabeto e a ler razoavelmente até, mas não sem ser um fracasso ante a maioria dos colegas que sabiam de cor o alfabeto.

Cresci mais ainda, e veio o caratê. Eu gostava muito, mas não conseguia acertar direito a sequência do Katá - pelo meio eu me perdia -; meu pai não quis pagar meu exame de faixa (que não era caro) e eu decidi abandonar o caratê. Outro fracasso! E lembro ainda que, dias depois, eu conseguia fazer todo o catá. Foi doloroso, mas eu logo esqueci o caratê.

Depois eu me tornei o adolescente: garotas, aprender a tocar violão, gostar de algo, ter uma mania, uma coleção ou algo do tipo... Quintuplo fracasso.

Os fracassos que me vieram após a adolescência, não os gosto de recordar, estão demasiado próximos do que sou, e me seria muito doloroso ter de escrevê-los. Mas tudo isso para dizer que Deus, quando nos fala, não mente.

III

Ontem, sonhei com meu primeiro diálogo com Deus
E lembrei de algo
Ao "Fracassarás!", Deus acrescentara: "mas ao contrário da maioria, terás pelo resto da vida a consciência de seu fracasso."

É horas de juntar os cacos

É hora de juntar os cacos,
pegar o que sobrou,
ainda que sangrando as mãos.
Ao menos, não sangram os pulsos,
Ainda não.

Os cacos ensanguentados,
eles existem para serem comidos,
digeridos e ruminados
e digeridos, por fim.
Não sobrará nenhum

Juro!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Confianzas - Gotan Project

Confianzas - Gotan Project


se sienta a la mesa y escribe
“con este poema no tomarás el poder” dice
“con estos versos no harás la Revolución” dice
“ni con miles de versos harás la Revolución” dice

y más: esos versos no han de servirle para
que peones, maestros, hacheros vivan mejor
coman mejor o él mismo coma, viva mejor
ni para enamorar a una le servirán

no ganará plata con ellos
no entrará al cine gratis con ellos
no le darán ropa por ellos
no conseguirá tabaco o vino por ellos

ni papagayos ni bufandas ni barcos
ni toros ni paraguas conseguirá por ellos
si por ellos fuera a la lluvia lo mojará
no alcanzará perdón o gracia por ellos

“con este poema no tomarás el poder” dice
“con estos versos no harás la Revolución” dice
“ni con miles de versos harás la Revolución” dice
se sienta a la mesa y escribe

Fragmento de "Os sofrimentos do jovem Werther", de Goethe.

Um teperamento dócil suporta tudo. Um temperamento dócil! Rio ao ver como essas palavras me brotaram da pena. Ah! um temperamento um pouco mais dócil faria de mim o homem mais feliz deste mundo. Pois, então? Outros, com um pouco de força e talento, passam diante de mim demonstrando confiança em si mesmos e eu próprio coloco em dúvida minhas forças e minha inteligência? Deus do céu, que me concedeu tantas graças, não podia deixar-me sem metade delas e, em troca, fornecer-me autoconfiança e contentamento? [...]

Sem dúvida, visto que somos feitos assim, gostando de nos comparar com tudo e com todos, a felicidade ou a desgraça reside nos objetos que colocamos em comparação: por isso, não há nada mais perigoso do que a solidão. Nossa imaginação, por natureza tende a se elevar, alimentada pelas fantásticas imagens da poesia, cria uma porção de seres, dos quais somos os mais insignificantes, e tudo o que está fora de nós parece magnífico, e passamos a considerar qualquer outra pessoa mais perfeita.

sábado, 3 de abril de 2010

Spinozana

Spinoza perguntou: o que pode um corpo?
Pergunto, então: o que não pode um corpo?

Pensamento escrito

Gastei alguns dias com os papéis do caderno e outros tantos com coisas afixadas na parede, nem sei como se traduz isso em horas... e isso para no final dizer: não consigo. Eu só queria dizer "não consigo", sem ter de explicar pra ninguém, sem ter de explicar a mim mesmo, sabe?

A frustração não é o melhor sentimento do mundo, e acho mesmo que ela já levou muita gente a dar cabo na vida. Pensei nisso...

Há mais sobriedade entre os que findam a existência por motivos nobres que aqueles apezinhados pelos motivos tolos?

Escrevo esses pensares por que a cabeça já não os comporta. E eu nem sei mais no que pensar...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Aos que ficam...

I

Sou um morto que ainda vive
Há quanto tempo estou morto é coisa que não sei,
Mas posso precisar que, hoje, tive a consciência de estar morto

Morto porque não consigo sequer escrever uma poesia
Morto porque hoje eu tentei chorar, eu queria muito chorar,
Mas não consegui

Um homem que não chora não pode estar vivo,
É uma coisa que vegeta sobre a vastidão da terra
Como alma penada que vendo a tudo e a todos, do mundo não faz parte

Acho que me expressei mal: não sou um morto vivo
Sou uma alma penada
E é de dar pena o penar em que me encontro

II

Sou uma alma penada
De dar pena,
Mas não se apenem de mim

A alma fora do corpo pode ser alma?
Existe anima sem corpo?
Não há!

Acho que me expressei mal: não sou uma alma penada
Sou um corpo sem alma
E é só por isso que ainda consigo vagar pelo mundo


III

Sou um corpo sem alma
Sem a costura, sabem?
Não, vocês não sabem

Sem poder chorar, tentei gritar
Sabem, coisas que um corpo pode fazer, mesmo sem alma
Mas também não consegui gritar

Acho que me expressei mal: não sou um corpo sem alma
Um corpo humano sem alma consegue gritar
Eu sou um verme, que por ser verme, não pode gritar


IV

Estas linhas poderiam se chamar “cartas de um suicida”
Mas, para morrer é preciso estar vivo
E eu não estou

quarta-feira, 17 de março de 2010

Sobre a arte de assassinar pensamentos...

- Mais, mais, isso não Basta!
- Mas, isso é tudo – pensava o aprendiz – não há mais, mas...
- Mas nada! É preciso mais!
- Mas é que...
- Você e seus “mas”, dizia-lhe com desprezo o seu mestre.
- Mas, mais não dá
- Então que seja menos do que queres, mas que ao menos seja mais do mesmo...
- Ficamos assim?
- Sim!
- Mas, mais do mesmo é mais?
- É mais!
- Obrigado pelos valorosos ensinamentos.
- Disponha.
- Nos vemos amanhã?
- Sim, amanhã.

E o jovem aprendiz retoma o caminho de casa. Entristecido caminha pelo dia nublado. Pensa em como escrever mais do mesmo, mas não sabe como.

- Não deve ser difícil – pensa –, mas...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Metrô

Quando ontem entrei no metrô, um cheiro forte dilatou-me as narinas.
Procurei de onde provinha tamanho odor. Há um único assento vazio no vagão e ao lado do assento vazio está a fonte do odor.

Era um trabalhador negro, mais negro que a noite. Mas não pensem vocês que era apenas a negrura que a natureza lhe deu, não! O trabalho ao sol lhe agudizou a tez. Parecia ter uns 38 anos, mas deveria ter muito menos.

Entre o mau cheiro, que eu já me havia esquecido, uma pergunta me surgira: que culpa tem o peão, fudido, proleta, fedido, se ao patrão lhe parece que água e sabão amolecem o trabalho?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Ajuda Humanitária

Ajuda Humanitária

A ajuda humanitária - diz a réporter, direto do Haiti - não dá pra todo mundo! Mas que humanidade é essa, quando a ajuda não dá pra todo mundo?

(Bruno Carvalho)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Impeachment!

Impeachment!

Estudantes fazem protestos no acesso ao Planalto
E como são barulhentos
Apesar de poucos, muito poucos...

Estudantes pedem a cabeça do governador do Distrito Federal
Impeachment! Essa é a palavra de ordem
Daqueles poucos, muito poucos...

E quando lhes oferecerem a cabeça do governador
E assumir o vice-governador ou outro político qualquer
Que seja honesto, um bom político

Que seja este político honesto como um tradicional republicano
Um sincero devoto da república e da Constituição
Farão os estudantes protestos barulhentos, mesmo poucos?

Os estudantes que vi protestarem,
Em seu intímo, querem uma coisa:
A Ordem!

(Bruno Carvalho)