quarta-feira, 24 de março de 2010

Aos que ficam...

I

Sou um morto que ainda vive
Há quanto tempo estou morto é coisa que não sei,
Mas posso precisar que, hoje, tive a consciência de estar morto

Morto porque não consigo sequer escrever uma poesia
Morto porque hoje eu tentei chorar, eu queria muito chorar,
Mas não consegui

Um homem que não chora não pode estar vivo,
É uma coisa que vegeta sobre a vastidão da terra
Como alma penada que vendo a tudo e a todos, do mundo não faz parte

Acho que me expressei mal: não sou um morto vivo
Sou uma alma penada
E é de dar pena o penar em que me encontro

II

Sou uma alma penada
De dar pena,
Mas não se apenem de mim

A alma fora do corpo pode ser alma?
Existe anima sem corpo?
Não há!

Acho que me expressei mal: não sou uma alma penada
Sou um corpo sem alma
E é só por isso que ainda consigo vagar pelo mundo


III

Sou um corpo sem alma
Sem a costura, sabem?
Não, vocês não sabem

Sem poder chorar, tentei gritar
Sabem, coisas que um corpo pode fazer, mesmo sem alma
Mas também não consegui gritar

Acho que me expressei mal: não sou um corpo sem alma
Um corpo humano sem alma consegue gritar
Eu sou um verme, que por ser verme, não pode gritar


IV

Estas linhas poderiam se chamar “cartas de um suicida”
Mas, para morrer é preciso estar vivo
E eu não estou

3 comentários:

  1. Por um momento até acreditei em um novo Maiakóvski (risos). Você, na verdade, é um homem qualquer. Gostei do poema.

    Abraços!

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  2. Um homem qualquer... e qualquer homem...

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