sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sexo de Equivalentes

- Vou gozar...
- Eu também, vem Paulo, vem!
- Gozei...
- Mmmmmm... foi maravilhoso!

Ele sabia que ela não chegou lá, mas, como de costume, achou melhor não comentar. Sentou na cama e acendeu um cigarro enquanto ela lhe abraçava o pescoço como um gato que se esfrega nas canelas do seu dono.

- Você me chamou de paulo...
- Jura?
- Sim.
- Paulo é o nosso gerente do banco, lembra? Passei o dia resolvendo coisas no banco.

Mas isso pouco importava ao nosso amante. Era outra a pergunta que queria fazer.

- Você gozou? - Perguntou, timidamente.
- Sim, foi divino.

Ele se cala. Agora sabe mais ainda que ela não gozou. Pensa: "Num mundo regido pela lei da troca de equivalentes, quem goza primeiro, ri melhor. Quem sabe se o Paulo..."

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quando eu nasci

I

Lembro que quando eu nasci, Deus disse: fracassarás!
Não dei muita importância, afinal, mesmo sendo um bebê, era óbvio para mim que a maioria das pessoas fracassam.

II

E eu cresci, larguei a chupeta mais tarde que a maioria dos bebês; o leite da minha mãe também acabou antes. Como vêem, fracassei ainda quando bebê.

Cresci um pouco mais, e ainda me lembro, que eu não conseguia decorar por completo o alfabeto, a, b, c, d... g, h, i... v, x, z...; eu apenas lembrava algumas sequências de letras. Depois aprendi o alfabeto e a ler razoavelmente até, mas não sem ser um fracasso ante a maioria dos colegas que sabiam de cor o alfabeto.

Cresci mais ainda, e veio o caratê. Eu gostava muito, mas não conseguia acertar direito a sequência do Katá - pelo meio eu me perdia -; meu pai não quis pagar meu exame de faixa (que não era caro) e eu decidi abandonar o caratê. Outro fracasso! E lembro ainda que, dias depois, eu conseguia fazer todo o catá. Foi doloroso, mas eu logo esqueci o caratê.

Depois eu me tornei o adolescente: garotas, aprender a tocar violão, gostar de algo, ter uma mania, uma coleção ou algo do tipo... Quintuplo fracasso.

Os fracassos que me vieram após a adolescência, não os gosto de recordar, estão demasiado próximos do que sou, e me seria muito doloroso ter de escrevê-los. Mas tudo isso para dizer que Deus, quando nos fala, não mente.

III

Ontem, sonhei com meu primeiro diálogo com Deus
E lembrei de algo
Ao "Fracassarás!", Deus acrescentara: "mas ao contrário da maioria, terás pelo resto da vida a consciência de seu fracasso."

É horas de juntar os cacos

É hora de juntar os cacos,
pegar o que sobrou,
ainda que sangrando as mãos.
Ao menos, não sangram os pulsos,
Ainda não.

Os cacos ensanguentados,
eles existem para serem comidos,
digeridos e ruminados
e digeridos, por fim.
Não sobrará nenhum

Juro!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Confianzas - Gotan Project

Confianzas - Gotan Project


se sienta a la mesa y escribe
“con este poema no tomarás el poder” dice
“con estos versos no harás la Revolución” dice
“ni con miles de versos harás la Revolución” dice

y más: esos versos no han de servirle para
que peones, maestros, hacheros vivan mejor
coman mejor o él mismo coma, viva mejor
ni para enamorar a una le servirán

no ganará plata con ellos
no entrará al cine gratis con ellos
no le darán ropa por ellos
no conseguirá tabaco o vino por ellos

ni papagayos ni bufandas ni barcos
ni toros ni paraguas conseguirá por ellos
si por ellos fuera a la lluvia lo mojará
no alcanzará perdón o gracia por ellos

“con este poema no tomarás el poder” dice
“con estos versos no harás la Revolución” dice
“ni con miles de versos harás la Revolución” dice
se sienta a la mesa y escribe

Fragmento de "Os sofrimentos do jovem Werther", de Goethe.

Um teperamento dócil suporta tudo. Um temperamento dócil! Rio ao ver como essas palavras me brotaram da pena. Ah! um temperamento um pouco mais dócil faria de mim o homem mais feliz deste mundo. Pois, então? Outros, com um pouco de força e talento, passam diante de mim demonstrando confiança em si mesmos e eu próprio coloco em dúvida minhas forças e minha inteligência? Deus do céu, que me concedeu tantas graças, não podia deixar-me sem metade delas e, em troca, fornecer-me autoconfiança e contentamento? [...]

Sem dúvida, visto que somos feitos assim, gostando de nos comparar com tudo e com todos, a felicidade ou a desgraça reside nos objetos que colocamos em comparação: por isso, não há nada mais perigoso do que a solidão. Nossa imaginação, por natureza tende a se elevar, alimentada pelas fantásticas imagens da poesia, cria uma porção de seres, dos quais somos os mais insignificantes, e tudo o que está fora de nós parece magnífico, e passamos a considerar qualquer outra pessoa mais perfeita.

sábado, 3 de abril de 2010

Spinozana

Spinoza perguntou: o que pode um corpo?
Pergunto, então: o que não pode um corpo?

Pensamento escrito

Gastei alguns dias com os papéis do caderno e outros tantos com coisas afixadas na parede, nem sei como se traduz isso em horas... e isso para no final dizer: não consigo. Eu só queria dizer "não consigo", sem ter de explicar pra ninguém, sem ter de explicar a mim mesmo, sabe?

A frustração não é o melhor sentimento do mundo, e acho mesmo que ela já levou muita gente a dar cabo na vida. Pensei nisso...

Há mais sobriedade entre os que findam a existência por motivos nobres que aqueles apezinhados pelos motivos tolos?

Escrevo esses pensares por que a cabeça já não os comporta. E eu nem sei mais no que pensar...