sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Um assassinato...

São cinco da tarde e a casa está pronta para receber o seu primeiro cliente. Fora uma tarde como as outras: maquiagem, cabelo, unhas, escolha das roupas, ordem das apresentações, tudo na mais perfeita ordem... As “meninas” – diz a dona da casa ao primeiro cliente que, inquieto, aguardava a ordem para que entrasse – já estão prontas!

***

O leitor deverá permitir-me uma interrupção, ela é necessária. É preciso apresentar o primeiro cliente, um personagem importante desta história singela. Seria um homem até atraente, não fosse o fato de que seus fracassos dos últimos anos lhe tivessem brindado uma salutar barriga e um ódio inaudito pela humanidade. Quando o vi a primeira vez, até o achei belo, mas logo se revelou asqueroso. Quando tinha trinta anos, seu pai, um velho e rico empresário, morrera e deixara para o recém-formado administrador de empresas a responsabilidade de cuidar dos negócios. Não preciso aqui mencionar de que tipo de negócios se tratava; em nossa narrativa, esta informação é absolutamente indiferente. Depois de um extravagante fracasso na condução dos negócios da empresa, nosso personagem conseguiu não só perder todo o respeito que tinha na alta cúpula da sociedade, como também foi responsável pelo fato de que este seleto círculo também passasse a ter desprezo pelo seu velho pai.
Um burguês, apenado do nosso personagem, pois que amigo do seu velho pai e portador de um coração, por assim dizer, sensível, logo lhe conseguiu um cargo na direção de uma das melhores escolas privadas de nossa cidade. Era daqueles trabalhos que não o faziam o pior dos seres na escala da divisão do trabalho, mas tampouco lhe oferecia grandes poderes de mando quando se tratava de finanças. Mas, apesar de tudo, tinha pompa, o que causara alguns problemas para o seu empregador. Na escola, além dos alunos, ninguém o respeitava. Torno a dizer, era um ser desprezível.
Nesta escola, o bondoso proprietário concedia aos filhos dos trabalhadores o direito de frequentá-la, desde que cumprido um sem-fim de “exigências exigentes”, aliás, exigentes até mesmo para um universitário. Vez ou outra, nosso administrador de empresas, agora diretor de escola, atacava de pedagogo ou qualquer coisa do tipo. Seu alvo predileto, os filhos e filhas dos trabalhadores.
Havia uma mocinha, quinze anos, filha do motorista da escola. O motorista, não fazia muito, recebera a notícia de que portava um câncer e, como não poderia deixar de sê-lo, o câncer não costuma ser muito generoso com os pobres. O velho, viúvo e doente, apenas contava com a sua jovem e bela (frise-se: bela) filha e sua velha irmã solteirona, a quem sustentava. De vida, não lhe restava muito tempo. Mas fora o suficiente para que suplicasse ao patrão que lhe prometesse a continuidade da filha na escola até o fim do colegial e que empregasse sua irmã como faxineira na escola. Apenas conseguiu que lhe fosse garantida a primeira das promessas, horas antes de falecer.

***

Era uma aula de história. O professor estava irritado com a nossa jovem aluna e recém-órfã. O motivo: a ela era impossível entender a colonização da América com a idílica visão de seu mestre a respeito dos colonizadores. Se havia algo que seu velho sabia e a havia ensinado, era história; disso ela entendia e jamais deixaria de defender o seu pai, mesmo que se tratasse de uma aula de história. Sua presença era altamente perturbadora naquele ambiente crédulo e conformado formado pelos filhos dos “outros”. O professor, temeroso de que isso pudesse tornar a ocorrer, mandou-a para o seu devido lugar: a sala do diretor. Uma advertência: os fatos que se seguiram são aqui contados de forma breve, uma vez que não consigo me lembrar de todos os detalhes da história e, ainda que os lembrasse, eu os precisaria matizá-los para que me fosse possível escrever sobre eles. Assim se seguiu o diálogo.
- Me mandaram até a sala do diretor. - Dizia ela.
- E o que você andou fazendo?
- Eu? Estudando. – Proferiu orgulhosa.
- Como ousa? – Indagava irritado o diretor.
- Como ouso estudar?
- Sua filha de uma puta! Quem você pensa que é? Você acha que é igual a eles, acha? Ou você esqueceu que está aqui porque ainda tínhamos alguma pena daquele velho de merda, também conhecido como seu pai?
A menina tremia, em seus olhos as lágrimas jorravam; apesar de tudo, estava emudecida. Diante daquele silêncio, o asqueroso diretor avançou-lhe com um tapa e obteve como resposta mais lágrimas, e o mesmo silêncio.
- Olha aqui, sua putinha – dizia ele enquanto a sacudia segurando em seus dois ombros – não pense que eu não sei o que você anda fazendo no fim das aulas! Não pense que eu não sei que tipo de putaria você anda fazendo com aquele fedelho!
O silêncio (dela) reinava.
- Se é puta o que você quer ser, agora mesmo você vai aprender! - Gritava.
O que a isto se seguiu me provoca repulsa tal que sequer consigo relatar. Resta apenas informar ao leitor, que, da parte daquela criança, apenas se ouviu o silêncio, o mesmo silêncio, e muitas lágrimas mais. Ademais, quando dois meses depois, terminou o ano letivo, a menina não mais voltou à escola. Ninguém tinha notícias suas, nem os colegas, nem os professores, nem o dono da escola, e nem mesmo aquele que fora o seu primeiro namoradinho.

***

Já se passaram quatro anos entre aquele acontecimento que se sucedeu em nossa cidade e o momento em que o nosso primeiro cliente esperava a porta. As três jovens que o receberam o cortejaram como a um príncipe. O “príncipe” também sabia que o dinheiro o fazia menos asqueroso (até, então, as pessoas de nossa pacata cidade nada sabiam daqueles fatos, mas ele já era considerado asqueroso) e mais “desejado”. São as regras do jogo: mais cifrões equivalem a, por assim dizer, mais mimos. Com uma caixinha, as meninas desta casa fingem que gozam; sem caixinha, elas nem fingem. Com mais um pouco, seu pau é enorme; sem mais um pouco, ele é apenas mais um pau, simples e ordinário.
O som da casa está baixo, as coisas ainda estão por começar. O cortejado senhor senta-se numa mesa ao lado do balcão junto às três moças que o paparicam mais e mais a cada drinque pago (são normas da casa). Era a primeira semana do mês, então os clientes estavam mais dispostos a gastar. Aos poucos, a casa ia se enchendo...
Havia uma jovem, dezenove anos, exuberante. Era alta, tinha as pernas compridas (e não eram finas) e os cabelos curtos, seus olhos pareciam duas janelas de um prédio em chamas. Vestia uma calça baixa (muito baixa) de couro sintético, e um top do mesmo material. Ela fumava de um jeito imponente, o cigarro na sua boca já era uma fonte de excitação. À diferença de todas as outras, não paparicava a ninguém. Se lhe ofereciam um drinque, aceitava, e logo apresentava ao seu benfeitor um ar de desprezo e ironia. Esta jovem odiava a todos aqueles homens, o que era óbvio, e, precisamente, por isso, era a mais desejada.
- Quem consegue trepar com ela hoje? - Essa era a pergunta que todos faziam.
A esta altura, a casa estava num frenético movimento. Os homens mais jovens, mais belos e mais endinheirados foram disputar a morena dos olhos de fogo. Ás duas da manhã, todos eles, um a um, foram dispensados.
Três da madrugada: o nosso diretor de escola estava bêbado, as mulheres da casa que estavam no salão estavam quase bêbadas e, o que é mais importante, a nossa jovem exuberante estava muito mais que bêbada. A dona da casa estava preocupada, mas preferira não intervir, afinal, essa moça excêntrica, que chegara há pouco mais de uma semana, prometia.
- Eu, eu amo a escória! – Gritava a jovem.
A moça irascível seguia: - Quem é capaz de se ajoelhar aos meus pés?
Muitos se ajoelharam. Não pense que aqueles homens eram ridículos por estarem fazendo isso (embora fossem ridículos, muitos de nós teriam se ajoelhado. Ela era irresistível!). Isso, ainda não fazia daqueles homens, a escória.
- Lambam minhas botas, seus cachorros!
Desta vez, poucos obedeceram. A seleção prosseguia.
- Lambam a sola das minhas botas, idiotas!
Agora, só restara mesmo o nosso diretor. Três movimentos: ela lhe cospe a cara, lhe empurra no chão com o pé que estava levantado e o levanta de volta, puxando-o pela orelha, de um modo que não se faz nem mesmo com aqueles animais que estão rumando para o abate. A cena era humilhante.
- Agora, seu corno, sim, você é um corno, onde tá a puta da tua mulher agora, seu merda? Agora, seu corno, agora nós vamos trepar. E sabe de uma: eu não vou sentir nada. Ninguém é capaz de sentir algo por uma coisa tão abjeta como você, seu comedor de menininhas! – Falava enquanto o puxava pela orelha.
- Como alguém pode ser tão baixo? Você é um lixo! Mas, agora, vamos acabar com isso logo.
Tendo chegado ao quarto, ela o jogou na cama e tirou a roupa com uma formalidade e frieza tamanha que era impossível excitar-se mesmo com aquela estupenda mulher.
- Vai, tira a roupa, tá esperando o quê?
Ele obedece e estava verdadeiramente excitado.
- Como você é nojento! - E o homem seguia mudo.
- Pelo menos que seja rápido, aliás, será rápido, um homem como você não deve demorar mais que dois minutos.
Ela põe uma música, que dizia “we don’t need no education”. Ela senta sobre ele sem nenhuma empolgação, e começa um vai-e-vem que mais se assemelhava à regularidade de um relógio. Tic-tac, tic-tac... A mulher, percebendo a chegada do êxtase masculino, pressiona-o com sua mão contra o queixo dele; a garganta dele estava à mostra... Uma navalha na garganta acabava de cortar o gemido de um gozo que estava por vir. Ela sai de cima do homem, veste suas roupas e vê aquele homem sangrar enquanto, em vão, tenta estancar com a mão o corte. Ela sentia algo de pleno. Jamais imaginaria que um crime lhe pudesse brindar uma sensação tão elevada.
Esta moça de dezenove anos, sumira tão de repente quanto aquela criança de quinze anos sumira há quatro anos atrás. Não tivemos mais qualquer notícias desta moça.



***
Espero que vocês não estejam achando que a filha do motorista fosse essa mulher, pois não era. É bom levar a coisa a bom termo. É provável que esta narrativa tenha induzido a esta conclusão que, como disse, não é verdadeira. Ao mesmo tempo, esta revelação pode colocar a seguinte questão: quais foram os reais motivos do assassinato? Tais motivos são desconhecidos pelo narrador que ora escreve.