terça-feira, 9 de novembro de 2010

Merda-para-si

Há coisas que se fazem sentir no fundo do cu
Não porque doem, não porque baixas
Mas porque sujas, mas porque fedem

Coisas mais escatológicas que a merda-em-si
Coisas escatológicas para-si
E não há cu que se salve da coisa

Cu! Com acento ou sem acento...
Cu! Com assento ou sem assento...
Cu! Sentado e em pé

Em meio a tanta escatologia-para-si
Não muito tenho que oferecer
A não ser o meu cu

A coisa

Ontem, pude sentir ferver aquelas coisas que por dentro se degladiavam
Ontem, quase tive a minha primeira crise
E então, controlei-me,
Mesmo apesar de todo o sufoco

O gatilho veio de fora,
Mas a bala que pode me acertar
Está aqui dentro,
Devo guardá-la dos inimigos

É hora de mudar a forma
Antes que toda forma se exploda,
A casca chegou ao limite do conteúdo
Ou rompe ou implode

Algo se está montando
Não posso revertê-lo
Apenas adiá-lo,
Apenas enganar a coisa

Ou a coisa me deforma
Ou pior, a coisa me reforma
É bom tratar bem...
Porque essa coisa - vez ou outra - transforma

A aula

O corpo marcado, cansado
O sono calado, deitado
O professor à frente, ditado
A aula morosa, d-i-t-a-d-a

Dias difíceis

Apesar do sol e do calor que ele traz,
O céu está enevoado.
Nuvens cinzas, quase pretas
E o dia está muito cinzento

Apesar do título e do prestígio que ele traz,
A sala de aula está enevoada.
Nuvens empoeiradas, quase obscuras
E o dia continua muito cinzento

Apesar dos homens e da liberdade que eles pregam
O dia segue emburrecendo.
Nuvens estúpidas, quase burras de tanta pretensão
E o dia... Ah! O dia permanece cinzento

Catarse

Universo, choro, catarse, frustração
Cidade, morro, pulso, suicídio
Mulher, homem, desejo, castração
Raiva, ódio, classe, palavrão
Roxo-preto-amarelo-rosa-cinza-azul-laranja-verde-roxo,
Vermelho não!

O cientista e a academia

Em suas idiossincrasias
Reproduz-se a sociedade na velha academia
Não falemos mais em classes, não invoquemos mais a Marx
Viva a democracia!

Mas se queres perverter santa instituição
Ousando proferir as velhas e mofadas injúrias
Levantar-se-ão como muita fúria
E ao réu dirão: não publicaremos sua produção

Mas os meios de existência do pretenso cientista
Vêm da tinta que escorre da sua pena
E quando a certos momentos lhe arrancam os meios
Vejo por-se de fora a cabeça da serpente fascista

A ciência

Na ciência tudo está colorido
Tem pra todo gosto
Quase todas as cores
Mas, do meio do arco-íris
Expulsaram o vermelho

L'université

Na universidade, não há vagas para a minha classe
Lá não se pode nem falar em classe
Perjúrio, heresia, leviandade

Na univerdade, enterraram a coerência
E expurgaram toda resistência
E hoje, como as coisas do museu, são excêntricas raridades

“L'université”. Em francês é mais bonito
E muito elegante
Mas na França, “Dans l'université” também não se pronuncia “classe”

sábado, 6 de novembro de 2010