quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Às seis horas (por: Tristônio)

Para ler ouvindo a "Cello Suite, no. 1, de Bach"



Ele levanta do seu último e conturbado cochilo
Vai à cozinha e enche o copo com o que resta do café frio do dia anterior
Senta-se à mesa
Apanha o isqueiro ao lado do saco com pães
Acende um cigarro
Vira o café
Olha o relógio: cinco horas e trinta minutos, o sol ensaiava se por (mas, dizem, nesse dia insistiu em permanecer por algum tempo, como se esperasse algo)
Pela primeira vez, em muito tempo, seus pensamentos estavam como que vazios, sem tormentos
Mas ele sabia que estavam lá, todos eles
Seu semblante era de quem não temia a nada (e não havia o que temer)
E, parece, perdoaria até mesmo o pior dos seus inimigos
Terminado o cigarro, caminha lentamente até o quarto
Abre uma caixa de sapatos
Pega algo
Volta à cozinha
Acende mais um cigarro
Vira o resto do café
Olha o relógio: seis horas, em ponto
Encosta o objeto sobre a região parietal da cabeça
Do outro lado voam, junto com pedaços da sua massa cinzenta, a bala .45 e todos aqueles pensamentos que o atormentavam


Eles, finalmente, se foram.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Viajar

O trecho era São Paulo-Salvador, de ônibus
cerca de 35 horas de viagem
a uma velocidade média de 80 km/h

Dentre muitas coisas,
lá pelo meio da viagem, pensei:
se demora tanto pra chegar, quanto demorou para construir?

A quantos km/h operavam os trabalhadores?
Quantos trabalhadores por metro quadrado?
Quantos mililitros de suor por segundo?
Quantos acidentes por dia?
Quantas mortes por mês?

Dentre tantos pensamentos, em trinta e cinco horas de uma cansativa viagem, esses foram os mais lúcidos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O paciente

* Para ler escutando o áudio



Na Unidade de Terapia Intensiva, o paciente cambaleia (entre a vida e o nada)
O Oxímetro acusa saturação menor que 60%: parada respiratória...
O coma induzido, já não é mais induzido
E, finalmente, o monitor cardíaco sonoriza o que todos já sabiam.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Equação

Alguns quilos a menos,
Todas as lágrimas fora,
Menos noites de sono,
Mais dias irritantes,
Um coração partido,
Menos roupas no armário,
Uma meia vida (mais ou menos),
Uns passos a dar

Resultado: ...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Dando um tempo...

Querid@s amig@s,

O fim do ano se aproxima e eu aproveito pra dar um tempo deste espaço em que expresso em tortas linhas as coisas que me afetam. A vida precisa voltar pra algum lugar, não pro mesmo lugar, mas para qualquer coisa que rume em espiral dialética.

Então, boas festas a tod@s,

bruno.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Chuva

Raras são as vezes em que o céu plúmbeo, as nuvens e a chuva me incomodam
Sempre gostei deste entristecer meterológico
Hoje chove, e muito

Se Deus existisse, hoje eu o mataria!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Segundo dia sem ela...

Uma reflexão sensata me obrigaria a simplesmente aceitar os fatos
mas faz tempo não tenho conseguido ser sensato
e tampouco consigo refletir

Eu pus tudo a perder
mais uma vez
a culpa é minha

Agora ela descobriu o que é viver
e o que me fode
é que eu não tava lá

O que me fode, é que eu fodi tudo
e eu já não sei mais viver
e nem quero

Então, desculpa, meu amor (deve ser a última vez que eu digo isso)
Essas linhas devem ser as piores que eu já escrevi
mas também as mais sofridas...

Fragmentos de "Os sofrimentos do jovem Werther" (Goethe)

* Para aquela que um dia me amou

"Às vezes não consigo compreender como outro pode amá-la, ousa amá-la, uma vez que eu a amo tão unicamente, tão profundamente, tão perfeitamente; uma vez que nada conheço, nada sei e nada tenho, além dela.

[...]

Ah! Esse vazio! Esse vazio terrível que sinto em meu coração! Penso muitas vezes: 'Se eu pudesse uma vez, uma só vez, apertá-la de encontro ao meu peito, todo esse vazio seria preenchido.

[...]

Ao constatar quão pouco significamos uns para os outros, tenho vontade de rasgar o peito e arrebentar a cabeça. Ah! Ninguém poderia me dar o amor, a alegria, o ardor e o prazer que me faltam, nem poderia fazer feliz quem, diante de mim, mostra-se sem ânimo, sem forças.

[...]

Tenho tantas coisas em mim, mas meu sentimento por ela absorve tudo: tantas coisas que, para mim, sem ela, tudo significa nada.

[...]

Faz parte do destino humano cada um de nós carregar sua cruz e beber até o fel de seu cálicee até a última gota. Se mesmo o Filho de Deus considerou o cálice demasiadamente amargo para Seus lábios humanos, por que devo fingir, considerando-o agradável? E por que deveria envergonhar-me, no terrível momento em que todo o meu ser oscila entre a vida e a morte, quando o passado surge como um relâmpago alumiando o abismo sombrio do futuro, e tudo desmorona em torno de mim, e o mundo inteiro parece se extinguir?"

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Primeiro dia sem ela

Hoje é meu primeiro dia sem ela
Deve ser o que dói mais
Sem contar aqueles dias em que encontro no mundo as coisas que me lembram ela

Então,
Se você notar algo diferente no meu rosto durante os próximos meses,
Tenha a gentileza de não me perguntar como estou.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Frio

São Paulo, 03 de dezembro de 2010, sexta-feira, calor escroto: 30ºC.
Mas, dentro do meu peito, neva...