quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Às seis horas (por: Tristônio)

Para ler ouvindo a "Cello Suite, no. 1, de Bach"



Ele levanta do seu último e conturbado cochilo
Vai à cozinha e enche o copo com o que resta do café frio do dia anterior
Senta-se à mesa
Apanha o isqueiro ao lado do saco com pães
Acende um cigarro
Vira o café
Olha o relógio: cinco horas e trinta minutos, o sol ensaiava se por (mas, dizem, nesse dia insistiu em permanecer por algum tempo, como se esperasse algo)
Pela primeira vez, em muito tempo, seus pensamentos estavam como que vazios, sem tormentos
Mas ele sabia que estavam lá, todos eles
Seu semblante era de quem não temia a nada (e não havia o que temer)
E, parece, perdoaria até mesmo o pior dos seus inimigos
Terminado o cigarro, caminha lentamente até o quarto
Abre uma caixa de sapatos
Pega algo
Volta à cozinha
Acende mais um cigarro
Vira o resto do café
Olha o relógio: seis horas, em ponto
Encosta o objeto sobre a região parietal da cabeça
Do outro lado voam, junto com pedaços da sua massa cinzenta, a bala .45 e todos aqueles pensamentos que o atormentavam


Eles, finalmente, se foram.

2 comentários:

  1. To gostando dessa coisa de post com música. Texto bem foda.

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  2. Então, ando experimentando isso. A vida também parece que tem anda com trilhas sonoras, então, vou fazendo acompanhar.

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