quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Com (alguma) classe

Quem te diverte?
Quem te faz sorrir?
Quem te dá tesão?

Onde você sorri?
Onde levanta o copo?
Onde trepa?

O que te importa?
O que não deixa passar?
O que fará da tua vida?

Como levanta o copo?
Como você fala?
Como você trata a um e a outro?

Qual é a sua lista de amores?
Qual é sua lista de coisas inúteis?
Qual é sua lista de coisas úteis?

Seja lá a sua resposta, o faça com alguma classe...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Tempos...

Em Salvador, dizem, hoje faz frio
Em São Paulo sempre faz frio...
Hoje eu "frio"
Frio...
Fora e dentro...
Sei lá...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dois

Eles decidiram não fazer os acordos incumpríveis; seu único acordo era não fazê-los.
Eles resolveram viver um amor possível, e isso, acreditam, já é muito.
Eles sofrem tanto quanto aqueles das promessas incumpríveis e dos amores efetivamente impossíveis.
Eles apenas descobriram que a mentira não é um mal necessário.

CONCRETA

Ela é tão concreta que me atinge como as pedras lançadas dos estilingues palestinos
E é tão correta, que a verdade, perto dela, dói pouco.

sábado, 24 de setembro de 2011

Um método (por Tristônio, quando este se viu à beira de uma crise)



Quando um pensamento não encontrar resolução
Que ele seja quase obsessivo e ao mesmo tempo de difícil simbolização,
faça um experimento

Esterilize um objeto cortante (um estilete é o mais indicado)
lave o seu antebraço
Com cuidado faça um corte
Nesta hora você verá a pele se abrir com uma roupa de zíper
O corte não pode ser muito raso
Eu sei que isso é pouco preciso (não muito raso), mas você só terá a intuição a te guiar nesta hora
E você deve tomar cuidado para não atingir a veia,
Afinal, você não quer morrer, mas apenas resolver um pensamento

Seu braço deve estar sangrando
E esta é a hora em que, vendo o sangue correr, você deve começar a confrontar as suas ideias
Você terá pouco tempo, e nisto reside a eficácia deste método

Se os pensamentos não se resolverem a tempo de você sanar o corte,
não se preocupe,
eles já estarão resolvidos...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Na rodoviária

Na rodoviária espero
o ônibus
Sobre os meus ombros
o capital
a mercadoria
o dinheiro (e sua ausência)
a força de trabalho (esfolada)
E tantos outros ônibus se vão
levando a força de trabalho
que se apresenta ao mercado
sob a forma mercadoria
em troca de dinheiro.
Todos ônibus vão passando
mas o ônibusa que me levaria de volta para aqueles calorosos abraços,
esse,
insiste
em
não
chegar.

sábado, 23 de julho de 2011

Nada...

Saltar
Calar
Estranhar
Estagnar
Esgotar
Esquivar-se
Intimidar-se
Escafeder-se
Esconder-se
Sumir
Fugir
Sair
Explodir
Implodir
Sucumbir
Desistir

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sobre a arte de sentir o que não se quer

O teu seguro, o que ele te assegura? Ou ele te segura?
Eu seguro, seguramos... ou achamos que seguramos.
Seguros de quê?
Seguros de quem?
De que serve a segurança?
Quem criou a segurança?
Os vínculos, os laços, pra quê diabos deveriam segurar, prender, amarrar?
Teus lábios não deveriam beijar o mundo? E teus braços... também não deveriam abraçá-lo?
Por que me rasga saber que assim deveria ser?
Eu que luto contra a propriedade no fundo sei que, como Jesus Cristo nos palavrórios da Santa Igreja, "ela está no meio de nós".

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Vinte mil

Há vinte mil cacos no chão,
nenhum aspirador de pó,
nenhum tapete para encobri-los

sábado, 18 de junho de 2011

E se eu pusesse uma flor no teu cabelo?
E se eu te lesse poemas?
E se...
E...
...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Os reformadores

Os rodapés de Carvalho branco estavam afixados sem nenhum pingo de tinta
A pintura, aliás era de primeira, branco e vermelho, em tons e sobretons devidamente combinados
O assoalho de Ipê estava pregado como nenhum outro, nenhum ponto de dilatação, nenhuma fissura
E as paredes, então... elas tinham níveis, assim como o teto também tinha
A mobília estava impecável, era "velhamente" moderna
Mas os alicerces, os alicerces...
Esses sempre são deixados para depois pelos reformadores.

sábado, 11 de junho de 2011

Lá do alto

Lá do alto, Eles, com ar sério, conversavam:

- É preciso fazer algo pelos pobres!
- São muitas pessoas morrendo de fome, muitas mesmo.
- E os trabalhadores, que salário de fome...

Lá de baixo, um sem-fim de homens e mulheres caminhava tranquilamente (assim parecia pra quem via de cima). A conversa, dos de cima, prosseguia:

- Há que se fazer algo por essa gente, há que se fazer leis, decretos, campanhas. Essa gente precisa saber que eles são sujeitos de direito.
- Verdade, deputado, há que se fazer algo. Nós, da esquerda, temos que fazer algo, não podemos deixar o nosso povo na mão!

E enquanto acabava mais uma reunião do “Comitê para a salvação dos pobres” e os quitutes eram guardados, lá embaixo, os de baixo, se aglomeravam, sussurravam, trocavam papéis. Eram tempos de greve, eram tempos de atropelar todo o direito, eram tempos de acertar as contas com as gravatas e seus portadores, mas os de cima, os de gravata (ou mesmo os sem), os da linguagem do direito e do clamor aos coitadinhos, esses não sabiam o que estava por vir.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Sobre a arte de abrir-se (e fechar-se)

- As relações são, sempre, relações em aberto
Ela falava com os braços e mãos abertos e voltados para o imenso céu azul
- Mas, abertas como?
Ele perguntava, inseguro como os diabos
- Não disse abertas, meu amor, eu disse "em aberto"
- E isso muda as coisas?
E ela, sem dizer uma palavra, girou, mas não em círculos; se voasse, seria uma borboleta.

domingo, 22 de maio de 2011

Sobre a arte de enganar-se

Primeiro ela lhe disse: acabou!
Depois disse a si mesma: sou livre, tão livre quando a própria liberdade
E era tão livre que escrevia que era livre
(Talvez achasse que ao repetir, realmente tornar-se-ia livre. E tinha razão)

Quando olhava-se no espelho enxergava a própria liberdade
E já tomava a liberdade em tão alta conta que até mesmo a representou (de forma mais que bela) num diálogo de estátuas: a melhor representação que tinha do concreto
E foi quando ela não mais quis ser livre

Por fim, ela quis se libertar da liberdade e de todas amarras do ar-livre
e ao fazê-lo buscou no mundo aquele que lhe arrancara toda liberdade, toda espontaneidade
Mas já não era tempo
Ele escolheu a liberdade... dela.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sobre a arte de "invernar"

"Vai viaja foge daqui que a felicidade vai te atacar pela televisão" (Tom Zé)

Na cidade-mais-que-concreta inverna antes de outonear. O frio desponta subitamente sem respeitar as legalidades daqueles forasteiros que vieram por aqui se instalar e nem mesmo as dos que ao frio se acostumaram... As árvores congelam antes que as folhas comecem a cair e tudo o mais por aqui se precipita... eles se precipitam... e eu me precipito... o precipício...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Uno


O átomo, a célula, o indivíduo, a propriedade, o amor a dois, a fusão... "Que reste-t-il de nos amour?"

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Acordar (por Tristônio)


Acordei vendo a cor do céu,
fiz um acordo com o céu (que estava nublado),
um acordo que envolve a corda,
enquanto vejo o céu

Acordo de novo (todo suado)
Era outro sonho
sonho por cima de sonho,
mas ainda sinto a corda no pescoço

Enquanto a água do chuveiro cai,
olho para o cano
e ele parece resistente
... para a corda

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Mudança ou "sobre o processo de mudar-se (mudação)"

Toda muda carece de cuidados muito próprios
Há aquelas que crescem melhor em estufas, outras ao ar livre, outras em um solo especialmente preparado
Seja esta ou aquela muda, a própria muda muda

Mudar é crescer
E mudança, então, é aquele processo pelo qual a muda muda
e, por isso, apesar de mudar, já não é mais muda, embora ainda mude, embora sempre mude

A sina da muda é mudar,
mudar até deixar de ser muda, morrer como muda
e ganhar outra existência como muda-que-não-é-muda

“Tudo o que existe merece perecer”, disse o grande filósofo alemão
Mas mesmo as mudas?
Sim, mesmo as mudas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um sonho *


Um velho amigo sonhou comigo.
Estávamos numa fila e ele puxara assunto com uma moça.
A moça - contou-me ele - estava falando da própria vida com o meu camarada. Eu, estava apenas de observador.

A moça lhe disse: - Precisei mentir duas vezes, pra que ele acreditasse em mim.

O sonho não foi meu, mas esse velho amigo sabe demais da minha história pra que eu despreze esse conteúdo.

Sigo então, minha sina com os sonhos. Os meus e os dos outros.

* O sonho, como tudo aqui escrito, foi de verdade.
** Na imagem: Loki, deus da mitologia nórdica.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vozes...





Não se preocupe com os trinta dias de cama, a febre apenas acusa que a cura se avizinha
(A voz baixa de uma enfermeira)

Desconheça-se
(Uma moça sussurrava ao meu ouvido, no balcão de um bar)

Ei, você tem sonhos, desejos?
(Perguntava uma amiga, sem saber que me martelava a alma)

Enquanto ela vive, eu escrevo
(Pensei)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Três diálogos

- Olá! Você tá sozinho?
- Sim, resolvi sair pra tomar algo.
- Aceita?
- Hum, não sei. O que é isso?
- É “mentira”, com um pouco de vodka.
- Melhor não, nunca me acostumei a drinks exóticos.
- Olha que você vai gostar, hein?
(ele toma um gole)

***

- Alô?
- Oi, quem fala?
- Sou eu, amor! Liguei pra dizer que estou morrendo de saudades e não vejo a hora de chegar amanhã e voltar pra casa.
- É, tentei te ligar o dia inteiro hoje, mas só dava na caixa...
- É que o sinal aqui é péssimo, cê sabe, né?
- Verdade. A que horas te pego na rodoviária?
- Não se preocupa amor, eu pego um táxi, ainda não sei que horas saio daqui. Os ônibus aqui estão uma merda!
- Nesse caso, eu preparo o jantar! Te amo!
- Também te amo!
(Do outro lado da linha, um homem tira o salto da moça enquanto lambe os seus pés.)

***

Eles se encontraram, por acaso, num café.
- Nossa! Há quanto tempo!
- É, já faz cinco anos...
- Cinco anos que...
- É, cinco anos. Mas me conta, o que anda fazendo?
Disse ela, tentando defenestrar o assunto
- Eu, bem... ando fazendo minhas coisas. Nada muito diferente de quando estávamos... quero dizer, de quando a gente tinha contato.
- No fim, sempre foi o que você gostou de fazer, ou não? Vou supor que está feliz.
- Sim, claro. E você?
- Se eu tou feliz? Ah! Muito!
Ela não fora feliz ao seu lado, pensava ele enquanto tentava disfarçar o indisfarçável constrangimento daquela situação.
- E você já casou?
Perguntou como quem fazia uma brincadeira.
- Não morre mais! Júlio, vem aqui, quero te apresentar um amigo, o Pedro.
Com um sorriso mais-que-simpático no rosto, Júlio aperta a mão de Pedro.
- Muito prazer, Pedro.
- Igualmente.
Pedro sabia que ela nunca havia falado dele para Júlio e isso, estranhamente, lhe doía mais que o fato de que ela estava casada.
- Bom, eu preciso ir, tenho muita pressa, deixei algumas coisas na universidade e... bem, tenho que ir.
Saiu Pedro andando como um bêbado, sem nem esperar um “tchau”.

Hélio

PARA LER OUVINDO: "Jesus, a alegria dos homens", de Johann Sebastian Bach





Hélio era leve como o gás que lhe dava o nome
Era leve a ponto de ser motivo de irritação entre os que o rodeavam
(aliás, era impossível rodear hélio)
Hélio era nobre, completo

No escritório era um tanto destacado, assim como na tabela periódica
Hélio era a calma quando tudo era tormenta
E era a calma quando tudo era calma também

Quando Hélio dançava, não importava o salão cheio
Ele passava com o seu par, lindo, entre todos
E sorria um sorriso leve

Ele sabia que era leve
E tinha tanta certeza de sua leveza
Que um dia resolveu prová-la ao mundo
(o mundo, aliás, já estava convencido disso)

Foi até o terraço do prédio em que trabalhava e subiu na balaustrada
Mirou a calçada e saltou
Achou que evaporaria, mas se estatelou no chão

sábado, 15 de janeiro de 2011

Em uma noite

Uma Jam Session à beira do mar,
A própria beira do mar,
As estrelas e
Uma lua-quase-cheia.

Ah! Por quatro horas esqueci que algo ainda doía...

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sol

* PARA LER OUVINDO "A SUMMER PLACE", DE PERCY FAITH





César - um grande amigo -, que andava muito triste, me disse: se, no fim dessa merda, só houver escuridão, a gente desenha um sol.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Partos

Tive um sonho destes esquisitos. Aliás daqueles muito esquisitos.
Eu segurava um fuzil, apontava para o meio de uma floresta; eu tinha certeza que algo de ruim estava por vir e eu precisava acabar com este algo ruim antes que fosse tarde e seja lá o que ele fosse.
Do meio da floresta sai uma jovem montada numa égua, uma égua muito gorda, aliás.
A jovem se aproxima e eu ponho a arma no chão.

- Será que você poderia folgar a cilha da minha égua?, Perguntou a moça.
- Sim, claro. Apresso-me em desabotoar a cilha.
- Esta égua está prenha?. Acrescentei eu.
- Está!

A égua entrou em trabalho de parto e foi quando eu percebi que a jovem moça também estava grávida. O lindo potrinho destrambelhado tentava caminhar, sem sucesso. Algum tempo depois, a jovem entra em trabalho de parto. Não tenho recordações do momento do parto. Apenas lembro de acarinhar a moça logo após o nascimento do bebê.

- Você é daqui?. Perguntei.
- Não, meus parentes são de longe. Respondeu a moça.
- Sendo assim, vocês dois ficam comigo até alguém aparecer.

Este sonho renderia mesmo muito material pra análise. Mas antes de me precipitar nos braços (ou no colo) de um analista e ficar sob sua direção, estou atento. É hora de parir, é hora dos partos!

Leve...

*PARA LER OUVINDO "JORGE MARAVILHA", DE CHICO





Sinto-me leve como uma pena
e eu que já tive pena de mim, do meu estado
Hoje pareço um Estado,
um Estado liberado, território livre da exploração, território livre da opressão
(e, por isso, Estado em vias de deixar de sê-lo)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um ano novo (eles dizem)

PARA LER OUVINDO "CLAIRE DE LUNE", DE DEBUSSY (É SÓ APERTAR O PLAY)




Dizem que um ano novo é uma espécie de novo ano
(eu discordo)
Como de costume, fugi dos festejos
(mas estava bem perto deles)
Família reunida
(e unida, eles juram)
na casa de praia

Às 23:10 fujo para longe deles,
caminho até a praia,
deito na areia,
o céu estava estupendamente lindo
(como há tempos, não o via)

Os fogos já estão estourando
O espetáculo é mesmo belo
(os humanos bem poderiam soltar fogos todas as noites)
Na minha cabeça, uma canção começa a tocar: Claire de Lune
(mas numa espécie de piano mais triste)
E um ano inteiro me passa a cabeça
(na verdade, quase dois)

Dores
Crises
Choro
Inseguranças
Mentiras-quase-verdades
Um lugar seguro
Um cais desabando
Um amor
Os dias em que eu quis não existir
Os dias em que eu não existi
Os dias em que quase deixei de existir
Uma conquista sem comemorações
Uma cidade assombrosa
Uma cidade fantasma
Pessoas assombradas
Pessoas fantasmas
Os poucos amigos
(e bons amigos)

"Claire de Lune" cessa
Estou com as mãos cheias de areia sobre o rosto
Na boca, um gosto de areia
Nos olhos, uma dor insuportável
Meu peito, sangra.

Desculpem-me se as palavras estão em desarranjo,
mas assim foi aquele dia primeiro
assim foram as imagens que saltavam
(a mais plena consciência do fim).