segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um sonho *


Um velho amigo sonhou comigo.
Estávamos numa fila e ele puxara assunto com uma moça.
A moça - contou-me ele - estava falando da própria vida com o meu camarada. Eu, estava apenas de observador.

A moça lhe disse: - Precisei mentir duas vezes, pra que ele acreditasse em mim.

O sonho não foi meu, mas esse velho amigo sabe demais da minha história pra que eu despreze esse conteúdo.

Sigo então, minha sina com os sonhos. Os meus e os dos outros.

* O sonho, como tudo aqui escrito, foi de verdade.
** Na imagem: Loki, deus da mitologia nórdica.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vozes...





Não se preocupe com os trinta dias de cama, a febre apenas acusa que a cura se avizinha
(A voz baixa de uma enfermeira)

Desconheça-se
(Uma moça sussurrava ao meu ouvido, no balcão de um bar)

Ei, você tem sonhos, desejos?
(Perguntava uma amiga, sem saber que me martelava a alma)

Enquanto ela vive, eu escrevo
(Pensei)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Três diálogos

- Olá! Você tá sozinho?
- Sim, resolvi sair pra tomar algo.
- Aceita?
- Hum, não sei. O que é isso?
- É “mentira”, com um pouco de vodka.
- Melhor não, nunca me acostumei a drinks exóticos.
- Olha que você vai gostar, hein?
(ele toma um gole)

***

- Alô?
- Oi, quem fala?
- Sou eu, amor! Liguei pra dizer que estou morrendo de saudades e não vejo a hora de chegar amanhã e voltar pra casa.
- É, tentei te ligar o dia inteiro hoje, mas só dava na caixa...
- É que o sinal aqui é péssimo, cê sabe, né?
- Verdade. A que horas te pego na rodoviária?
- Não se preocupa amor, eu pego um táxi, ainda não sei que horas saio daqui. Os ônibus aqui estão uma merda!
- Nesse caso, eu preparo o jantar! Te amo!
- Também te amo!
(Do outro lado da linha, um homem tira o salto da moça enquanto lambe os seus pés.)

***

Eles se encontraram, por acaso, num café.
- Nossa! Há quanto tempo!
- É, já faz cinco anos...
- Cinco anos que...
- É, cinco anos. Mas me conta, o que anda fazendo?
Disse ela, tentando defenestrar o assunto
- Eu, bem... ando fazendo minhas coisas. Nada muito diferente de quando estávamos... quero dizer, de quando a gente tinha contato.
- No fim, sempre foi o que você gostou de fazer, ou não? Vou supor que está feliz.
- Sim, claro. E você?
- Se eu tou feliz? Ah! Muito!
Ela não fora feliz ao seu lado, pensava ele enquanto tentava disfarçar o indisfarçável constrangimento daquela situação.
- E você já casou?
Perguntou como quem fazia uma brincadeira.
- Não morre mais! Júlio, vem aqui, quero te apresentar um amigo, o Pedro.
Com um sorriso mais-que-simpático no rosto, Júlio aperta a mão de Pedro.
- Muito prazer, Pedro.
- Igualmente.
Pedro sabia que ela nunca havia falado dele para Júlio e isso, estranhamente, lhe doía mais que o fato de que ela estava casada.
- Bom, eu preciso ir, tenho muita pressa, deixei algumas coisas na universidade e... bem, tenho que ir.
Saiu Pedro andando como um bêbado, sem nem esperar um “tchau”.

Hélio

PARA LER OUVINDO: "Jesus, a alegria dos homens", de Johann Sebastian Bach





Hélio era leve como o gás que lhe dava o nome
Era leve a ponto de ser motivo de irritação entre os que o rodeavam
(aliás, era impossível rodear hélio)
Hélio era nobre, completo

No escritório era um tanto destacado, assim como na tabela periódica
Hélio era a calma quando tudo era tormenta
E era a calma quando tudo era calma também

Quando Hélio dançava, não importava o salão cheio
Ele passava com o seu par, lindo, entre todos
E sorria um sorriso leve

Ele sabia que era leve
E tinha tanta certeza de sua leveza
Que um dia resolveu prová-la ao mundo
(o mundo, aliás, já estava convencido disso)

Foi até o terraço do prédio em que trabalhava e subiu na balaustrada
Mirou a calçada e saltou
Achou que evaporaria, mas se estatelou no chão

sábado, 15 de janeiro de 2011

Em uma noite

Uma Jam Session à beira do mar,
A própria beira do mar,
As estrelas e
Uma lua-quase-cheia.

Ah! Por quatro horas esqueci que algo ainda doía...

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sol

* PARA LER OUVINDO "A SUMMER PLACE", DE PERCY FAITH





César - um grande amigo -, que andava muito triste, me disse: se, no fim dessa merda, só houver escuridão, a gente desenha um sol.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Partos

Tive um sonho destes esquisitos. Aliás daqueles muito esquisitos.
Eu segurava um fuzil, apontava para o meio de uma floresta; eu tinha certeza que algo de ruim estava por vir e eu precisava acabar com este algo ruim antes que fosse tarde e seja lá o que ele fosse.
Do meio da floresta sai uma jovem montada numa égua, uma égua muito gorda, aliás.
A jovem se aproxima e eu ponho a arma no chão.

- Será que você poderia folgar a cilha da minha égua?, Perguntou a moça.
- Sim, claro. Apresso-me em desabotoar a cilha.
- Esta égua está prenha?. Acrescentei eu.
- Está!

A égua entrou em trabalho de parto e foi quando eu percebi que a jovem moça também estava grávida. O lindo potrinho destrambelhado tentava caminhar, sem sucesso. Algum tempo depois, a jovem entra em trabalho de parto. Não tenho recordações do momento do parto. Apenas lembro de acarinhar a moça logo após o nascimento do bebê.

- Você é daqui?. Perguntei.
- Não, meus parentes são de longe. Respondeu a moça.
- Sendo assim, vocês dois ficam comigo até alguém aparecer.

Este sonho renderia mesmo muito material pra análise. Mas antes de me precipitar nos braços (ou no colo) de um analista e ficar sob sua direção, estou atento. É hora de parir, é hora dos partos!

Leve...

*PARA LER OUVINDO "JORGE MARAVILHA", DE CHICO





Sinto-me leve como uma pena
e eu que já tive pena de mim, do meu estado
Hoje pareço um Estado,
um Estado liberado, território livre da exploração, território livre da opressão
(e, por isso, Estado em vias de deixar de sê-lo)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um ano novo (eles dizem)

PARA LER OUVINDO "CLAIRE DE LUNE", DE DEBUSSY (É SÓ APERTAR O PLAY)




Dizem que um ano novo é uma espécie de novo ano
(eu discordo)
Como de costume, fugi dos festejos
(mas estava bem perto deles)
Família reunida
(e unida, eles juram)
na casa de praia

Às 23:10 fujo para longe deles,
caminho até a praia,
deito na areia,
o céu estava estupendamente lindo
(como há tempos, não o via)

Os fogos já estão estourando
O espetáculo é mesmo belo
(os humanos bem poderiam soltar fogos todas as noites)
Na minha cabeça, uma canção começa a tocar: Claire de Lune
(mas numa espécie de piano mais triste)
E um ano inteiro me passa a cabeça
(na verdade, quase dois)

Dores
Crises
Choro
Inseguranças
Mentiras-quase-verdades
Um lugar seguro
Um cais desabando
Um amor
Os dias em que eu quis não existir
Os dias em que eu não existi
Os dias em que quase deixei de existir
Uma conquista sem comemorações
Uma cidade assombrosa
Uma cidade fantasma
Pessoas assombradas
Pessoas fantasmas
Os poucos amigos
(e bons amigos)

"Claire de Lune" cessa
Estou com as mãos cheias de areia sobre o rosto
Na boca, um gosto de areia
Nos olhos, uma dor insuportável
Meu peito, sangra.

Desculpem-me se as palavras estão em desarranjo,
mas assim foi aquele dia primeiro
assim foram as imagens que saltavam
(a mais plena consciência do fim).