terça-feira, 31 de maio de 2011

Sobre a arte de abrir-se (e fechar-se)

- As relações são, sempre, relações em aberto
Ela falava com os braços e mãos abertos e voltados para o imenso céu azul
- Mas, abertas como?
Ele perguntava, inseguro como os diabos
- Não disse abertas, meu amor, eu disse "em aberto"
- E isso muda as coisas?
E ela, sem dizer uma palavra, girou, mas não em círculos; se voasse, seria uma borboleta.

domingo, 22 de maio de 2011

Sobre a arte de enganar-se

Primeiro ela lhe disse: acabou!
Depois disse a si mesma: sou livre, tão livre quando a própria liberdade
E era tão livre que escrevia que era livre
(Talvez achasse que ao repetir, realmente tornar-se-ia livre. E tinha razão)

Quando olhava-se no espelho enxergava a própria liberdade
E já tomava a liberdade em tão alta conta que até mesmo a representou (de forma mais que bela) num diálogo de estátuas: a melhor representação que tinha do concreto
E foi quando ela não mais quis ser livre

Por fim, ela quis se libertar da liberdade e de todas amarras do ar-livre
e ao fazê-lo buscou no mundo aquele que lhe arrancara toda liberdade, toda espontaneidade
Mas já não era tempo
Ele escolheu a liberdade... dela.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sobre a arte de "invernar"

"Vai viaja foge daqui que a felicidade vai te atacar pela televisão" (Tom Zé)

Na cidade-mais-que-concreta inverna antes de outonear. O frio desponta subitamente sem respeitar as legalidades daqueles forasteiros que vieram por aqui se instalar e nem mesmo as dos que ao frio se acostumaram... As árvores congelam antes que as folhas comecem a cair e tudo o mais por aqui se precipita... eles se precipitam... e eu me precipito... o precipício...