domingo, 27 de outubro de 2013

Arrancar a barba
Cortar os cabelos
Pra não cortar os pulsos,
Não arrancar a alma
Se eu falo pouco
É pra não ter que mentir
Você fala e eu só ouço
Que é pra não ter que fingir
Uma flor no meio do asfalto não é uma flor rompendo, rasgando o asfalto
Uma flor no meio do asfalto é só uma flor comprimida, espremida, mutilada pelo asfalto

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Conselhos



Evite atalhos amorosos
Evite os amores fáceis
Evite as poesias dóceis
Evite presentes sem letras

Evite atalhos literários
Evite as compilações
Evite os livros de comentadores
Evite os comentadores de livros de comentadores

Evite os atalhos nas respostas
Evite a burocracia que nos faz impotentes
Evite a legalidade que nos faz covardes
Evite o silêncio quando é tempo de espernear

Evite o relógio
Evite a mansidão
Evite o prefácio
Evite a função

Evite atalhos,
Evite atalhos,
Evite atalhos,
Mas aceite o conselho.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Vai... e se der, volta...

Vai, viaja, se alegra, sorri
Volta, vem, vem inteira
Ajunta os pedaços que eu deixei

Ama, experimenta, voa
E se voltar, vem, vem inteira
Ajunta os pedaços que eu deixei

Se valer a pena,
Volta, vem, vem inteira
E torna a fazer graça com a minha graça

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Tipo um Blues


Era um Blues
Um Blues inacabado
O solo de guitarra, parado
Nem prato, nem bumbo

Era um Blues no "mei" do mundo
Com um encontro descabido
de três estranhos conhecidos
Era o fim da balada

Era um blues no "mei" do nada
O cantor emudeceu
A perna dela estremeceu
E eles fizeram um silêncio ártico

Terminam o Blues, monossilábicos
Um Blues de 11 compassos
Desarmônico, sem cadência, com fracassos
Era um Blues inacabado




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Para os dias que virão


Após a revolução e a emancipação das mulheres
Um homem de meia idade se queixava: - Perdemos os privilégios, agora elas nos tratam como um objeto, nos deixam a qualquer tempo, não cuidam de nós.
Após a revolução e a emancipação das mulheres
Uma mulher, jovem, adolescente, explicava: - Ganharam o direito de serem amados de verdade.

sábado, 21 de setembro de 2013


Tempo,
Primavera, verão, outono, inverno
Len-ta-men-te

Tempo,
Dia, tarde, noite, meio-dia
Ainda vagaroso

Tempo
Relógio de ponteiros
Adianta-se

Tempo
Ponteiro de segundos...
Pra quê tanto amor com hora marcada?

Tempo-burguês
Tempo-reaça
Tempo-capital
Tempo-de-classe

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Lá no meio



Meio São Paulo, mei sertão
Meio Marx, mei Lampião
Meio Joplin, mei Gonzagão
Meio Peixes, meio Leão
Meio virtude, meio paixão



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Entrepistas



Chuva que acaba antes de chover
Aula que acaba antes da hora
Dor que se sente e não se chora

Noite no céu sem estrelecer
Sangue que falta na veia
Aranha que para no meio da teia

Grito travado no peito
Garoto envergonhado no assobio
Menina parada no "mei" do meio-fio

Predicado não encontra sujeito
Gole de whisky engasgado
Choro nos zói entalado

Carro no meio da pista
Ponteiro no meio da contagem
Sem tempo pra meia-frenagem
Farol do outro lado se avista...



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Carnaval



Enquanto ela comemorava o carne vale,
aos gregos modos,
Era ele quem, de fato,
dava adeus à carne

Acompanhavam-lho
Hegel,
Göethe,
Engels,
Marx e alemães outros

Também juntava papéis mais
de menor importância
E buscava nas canções conhecidas
sonoridades desconhecidas
algum Fausto, Feuerbach, Mefisto ou Margarida
Mas da matemática musical (e de qualquer outra matemática) conhecia pouco

Escrevia, escrevia, escrevia
Fazia-o num crescente,
como cresciam os versos sem rima, sem métrica
a-p-á-t-i-c-o-s
Sem marchas, sem fantasias, sem beijos de carnaval
Acabava, assim, a última estrofe, em sete versos,
uma estrofe cabalística