sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Um incomum dia comum

Hoje foi um incomum dia comum. Parecia ser um dia qualquer (e no fim, foi mesmo). Acordar, tomar banho, trocar-se, virar duas xícaras de café, pensar nela, sair de casa, tomar o ônibus. No trólebus a cena incomum se passou. Entro no ônibus, pago ao trocador, ele me dá o troco, passa o cartão, giro a roleta e me sento. Onde me sentei, dois bancos estavam dispostos um frente ao outro. O rapaz que estava de frente pra mim estava a meu lado esquerdo; ao lado dele, espaço vazio, ao meu lado, também. Uma velha se senta ao meu lado (na janela) e pede ao rapaz que troque de lugar para que ela coloque as sacolas. O rapaz passa para o banco em frente a mim, a velha põe no banco as sacolas e também os pés, o rapaz desce na parada seguinte. A velha abre uns exames médicos e os lê como quem já sabe o que cada um daqueles indicadores significa; fiquei imaginando que ela teria um câncer, não sei por qual razão, mas me parecia que ela tinha algo grave (muito embora seu estado físico não me desse qualquer pista disso) ainda que seu sorriso tivesse algo de galhofeiro. Galhofeiro, acho que isso que tinha no rosto dela quando pediu para o rapaz trocar de lugar. Uma cega entra no ônibus com seu cão-guia, um labrador preto, lindo. Meus olhos, naquele instante, pertenciam aquele cachorro. No bairro da República, uma mulher que parecia morar na rua e estava em crise joga para dentro do ônibus um pequeno papel que plana até cair no chão. Ela sai correndo em meio aos carros e abaixa, como que apanhando uma pedra (eu não vi a pedra, sei que não vi, mas eu sabia que era uma pedra), fecho as duas janelas que me estavam próximas e peço para a senhora do sorriso galhofeiro ao meu lado abaixar-se (ela não tinha percebido o que se passava), ela abaixa, a pedra bate no vidro, mas sem força, e o vidro nem racha. A louca sai, louqueando pelo meio dos carros, rumo à praça, o ônibus todo começa a comentar, aumento o volume do meu player, que tocava "Hallellujah", de Jeff Buckley. Fecho os olhos para fazer a lágrima que se insinuava no meu olho direito descer, a velha agradece por eu tê-la avisado, toma suas sacolas, pede que eu puxe a corda do ônibus e desce no ponto. E tudo voltou ao normal

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