domingo, 30 de março de 2014

Onde falta a dialética

Que dizer de um dialético que, ao amar, angustia-se com os meios, não entende o particular, que voa do singular ao universal e vice-versa sem termo médio, que no compartir, sofre, só de pensar em um terceiro termo da unidade, em um outro?

domingo, 23 de março de 2014

Um pouco da história da minha loucura



Um excesso de dialética me levou – desde muito cedo – a jamais admitir a cisão cartesiana que a maioria de nós julga existir entre o corpo e a alma; sempre achei que se o corpo padece, a alma vai junto e vice-versa. Isso se mantém, para mim, inalterado, mas algumas circunstâncias me levaram a acrescer algo a esta compreensão que nada tem de original. Ainda faltava dialética nisso.

A vida sob o capitalismo, entretanto, nos cinde (e não é aparentemente) entre corpo e alma, por mais que ainda possamos seguir afirmando a integralidade do ser em sua genericidade. Por isso quisesse eu ou não, minha vida era/é cindida assim, tal qual nos pôs a divisão social do trabalho própria do capitalismo. São poucos os momentos da vida em que você sente o religare entre estas duas propriedades cindidas do ser social. Não riam com o que virá, eu sou um homem muito doente e falo desde o que há de mais profundo em mim. Não seria bom ser ridicularizado por isso.

Conheci uma mulher de cheiro de baunilha, que fala pouco, mas fala bem. As pessoas tem seu cheiro, mas baunilha, era demais pra mim! Não bastasse o cheiro, não bastasse a pele, não bastasse o beijo, tinha uma alma que me envergonhava pela minha pequenez. Não demorou nada (nada mesmo) para que eu me sentisse completamente entregue àquele ser inteiro de modo tal que muito cedo eu já não conseguia saber o que era o seu cheiro de baunilha e o que era a sua personalidade absurdamente inteira. Mas não pensem que foi aí que revi minha compreensão.

Passamos um tanto de dias e noites entrincheirados em hotéis, como se não houvesse mundo (o que apenas era suspenso quando a necessidade de comer chegava no seu limite). Tão grande quanto o que vivíamos nesses quartos de hotel era a dor que apertava quando era hora de entrar no ônibus que me trazia de volta à minha cidade ou que a levava à cidade dela. A distância não era grande, mas era dolorosa. Era suportável porque, mesmo longe, a voz dela sempre presente me acalmava, me excitava, me fazia deitar e levantar inteiro.

Então o vento carregou seu cheiro para ainda mais longe (embora por mais que passem os dias, o seu cheiro siga forte em minhas narinas) e sua voz também se tornou menos presente. E as noites nos hotéis – eu sabia, mas agora sei ainda mais – já não seriam tantas noites. E foi aí que comecei a padecer. Primeiro delirei que me beijava o rosto quando estava quase dormindo, depois sonhei que desaparecia do meu lado. Então pude entender que não basta um corpo e uma alma. A minha pele sem a dela, derretia; minhas pernas procuravam, espasmáticas, as delas em minha inútil cama de casal, os meus olhos só a viam como presença espectral e, então, choravam, desesperados. O peito apertava, espremia como quem a procurasse abraçar de um jeito que nunca mais fosse pra longe. Os copos viravam da minha mão e eu tremia com a garrafa de whiskey.

Então padeci, por inteiro. Com os músculos inibidos e anima em baixa conta pude sentir a integralidade mente-corpo. Agora, não mais dividido de mim cartesianamente, mas newtonianamente pelos kilômetros que me separam dela, escrevo de um quarto (que não é mais de hotel) com paredes brancas, com a sensação de estar dopado e de que não é ela quem vai abrir a porta, mas um homem vestido num jaleco branco.